quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Acabando-se feito lápis

O poeta, se não consegue namorar
quem tanto ama,
não deita na cama
a se lamentar
sobre a falta de ter
alguém para cortejar.

Vai para a escrivaninha
e ali se acaba
feito o próprio
lápis que traz
nas mãos,
entre palavras
e interjeições
que serão escritas,
mas nunca
ditas,
nem no pé do ouvido.

Triste o poeta ?
Duvido.

Pois, para quem ama
a poesia e as
palavras...
imaginação
é muito mais 
que simples 
viagra e uma
longa ereção.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Cadê o trenó com as renas que riscavam o céu ?

Na rua, um animado ônibus do Papai Noel me faz pensar que nossos sonhos estão cada vez mais no nível do chão. Talvez estejam mais ao nosso alcance, mas bem menos mágicos.

Delicadas montanhas

O cabelo resvala de leve
no que há pouco era puro 
repouso, apesar de seu
frequente balançar.
E se esse cabelo inconsequente
ousa viajar entre o 
vale e os picos...
eu aqui só na imaginação,
como é que fico ?
Me declaro,
me escalo como 
alpinista,
mas logo entendo 
a ligeira pista.
E assim, de novo me ronda
o medo...
e em vez de encher
as minhas mãos
fico a chupar o dedo...


terça-feira, 26 de novembro de 2013

Um livro diferente

Aquele era um livro para ser lido de cabeça para baixo. Indicado para trapezistas, crianças que se dependuram em árvores e deixam o cabelo escorrer, seguindo a lei da gravidade, ou para ser degustado em meio a um tropeço, quando tudo vira ao contrário, momentos antes de se ir ao chão.
Era um livro para pessoas ousadas, que não sofriam com vertigem ou para aquelas corajosas que, mesmo com náuseas, enfrentavam ficar de ponta-cabeça só para lê-lo. Era um livro para os desavergonhados, que encaravam as críticas do ato insólito e também para os simples que nem se davam conta de que eram alvo de chacotas quando praticavam a leitura plantando bananeira.

Mas esse livro não aguentava desaforos. Ele fugia às regras e assim devia ser entendido, e lido. Houve certa vez um sujeito, cheio de rigidez, que tentou padronizá-lo e foi lê-lo da maneira convencional. As palavras todas escorreram e foram parar no chão. E o tal sujeito só percebeu o quão vazio ele era, quando não conseguiu escrever uma linha sequer no espaço em branco deixado em cada página após a fuga das palavras.

Para pensar...

Se Serial Killer não começasse 
por "se", mas por "si", como pede 
a exata pronúncia em inglês,
não haveria Serial Killer.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Caution: wet floor

Ao vê-la toda molhada
escorregou exatamente ao 
fazer o que lhe parecia
mais seguro diante 
daquela situação:
ao "passar o rodo" nela.

13º

O fim de ano se aproximava,
então ela passou a olhar
para as vitrines cheia de 
décimas terceiras intenções.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Doce imaginar

Ela passou por mim
usando Angel e
tive a sensação
 
de que trazia 
algodão doce
no fundo da calcinha.

Pobre peixinho

Aquele beta
não tinha vocação
para beta.
Queria em 
seu aquário...
um par de tetas.

Entrelinhas

Você se mostra sem se mostrar.
Deixa transparecer que me quer,
embora sempre me negue.
Mística mágica dúbia
de uma calça legging.

Escada rolante

A escada rolante,
onde flanar era
bom à beça,
que coisa...
já tem via 
expressa.

Direito de poeta ?

Será que quando um poeta
sofre acidente,
nessas ruas da amargura,
tem direito a receber
o DPVATE 

Há ais e ais

Quando se cai do cais
e se sabe nadar...
ai...
Quando se cai do cais
e não se sabe nadar...
...ai, glub, ai, glub, ai, ai,
glub, glub.
O cais é o mesmo
já os ais... ditos
por descontração
ou por pura
precisão. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Sonhar nas alturas

A moça passeia nua pelos cômodos
e seus cabelos acariciam seus lindos
peitos, que, por contradição, em vez de
se dobrarem aos carinhos, 
mais duros ficam. Como se no cume
daquelas duas montanhas um alpinista
imaginário precisasse de um pouco 
de terra firme, no pico, onde
repousar seus pés de sonhador...

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Árdua missão

Uma coisa que estimula o apetite
nesta vida é querer ganhar a atenção
de uma moça bem comida.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Troca

Um pouco de quem aprende
sempre fica com quem ensina
e é nessa troca que a conversa
vira oficina, em que as palavras
são reunidas, escolhidas,
acolhidas ou rechaçadas.
E às vezes uma ideia 
dada por perdida
ali é fundida,
transformada e ganha
alma, no calor da 
discussão ou no 
silêncio de quem 
se sente transformado
em plena calma. 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Eletrodomésticos

Não basta que seu coração seja frost free,
a exemplo de seu refrigerador,
a fim de eliminar o gelo que tanto o distancia 
das pessoas. É necessário também que 
seu coração seja autolimpante como o forno de 
seu fogão para jogar fora, automaticamente,
toda mágoa, frustração, ódio e tristeza.
O importante é descobrir que a vida
tão elétrica, eletrônica e eletrizante
pode ser também prazerosamente doméstica.

Uma questão

Será que o Peter Pan se aborrece com a possibilidade de nunca poder desfrutar do direito de usar um assento destinado a idosos em um trem, ônibus ou metrô ?

Na ponta dos dedos

Depois de navegarmos pelos sete mares
e de fazermos viagens interestelares
parece que voltamos no tempo
digitando afoitos apenas com 
nossos polegares.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

?

E se o ponto de interrogação 
for um ponto de exclamação
que se tornou curvo
de tanto apanhar
na forja que reprime
a espontaneidade ?


Diante do balançar da solidão

A solidão é uma menina tímida que se balança debaixo de um grande árvore
que existe em nossa mente, e que quando em silêncio a levamos alguma questão que nos incomoda, ela simplesmente continua o seu concentrado ato de brincar e não nos dá a mínima. Ela sempre está tão bem consigo e é assim que ela nos dá a sua resposta.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

&

Meu amor, não me leva e mal,
mas enquanto eu lhe desfio
o alfabeto, 
você me trata apenas como 
"&" comercial. 

Elevador

No elevador lotado,
depois do pum,
sete questionamentos
acusatórios nas cabeças,
certeza, apenas na
de um.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Equilíbrio entre os extremos

Misturou "Ecstasy" com "Boa noite, Cinderela",
e como foi normal aquela festa pra ela.

Perfil

Ela estava no cio,
até que o viu de perfil.
Aí, da paixão 
apagou-se o pavio.
E ele ficou...
a ver navios.

Fake

Ela era tão fake, que até seu arroto era dublado e o peido vinha com closed caption.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Amor

Ela tatuou um coração bem no pulso,
prova de amor a ele, que logo
foi embora. Agora, quando anda
em pé de metrô e precisa justificar
aquele coraçãozinho a algum
curioso, diz apenas que fez
uma homenagem à marca
da paçoquinha que tanto
amou na infância.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Tudo correndo

Com esse mundo agitado eu me abalo.
Por que é que temos de contar as 
nossas histórias com a rapidez
de locutor de corrida de cavalos ?

Os executivos e os que realmente executam

Dizem que o mundo é feito pelos executivos, que mandam e desmandam. Mas o que seria desse mundo sem essa argamassa de mocinhas de uniforme, que vão nos trens lotados de manhã, sem os motoboys, loucos ou quase previdentes, mas sempre em risco, sem esses trabalhadores que suam nas linhas de montagem e que não veem a hora de, simplesmente, almoçar aqueles pratões para depois gritarem comedidamente nas poucas rodadas de truco que conseguirão fazer ?

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Sobre sonho e realidade

Ela lhe tirava o sono feito café. Assim ele não dormia. E por não dormir, não sonhava com ela nua lhe tirando a roupa, como ele vivia sonhando acordado.
Um dia, trocou o dia pela noite, e como não sabia mais qual era um qual 
era outro, porque não dormia, viu aquela linda mulher vindo em sua direção.

Ela vinha nua, lhe tirou a roupa e os dois transaram como num sonho. Depois, enfim, ele adormeceu. Ela também. E para pôr fim às dúvidas se era dia ou noite, se era sonho ou realidade, foram acordados por um sujeito bêbado que ao ver o casal nu sobre a grama do jardim da praça achou que estivesse sonhando. E começou  a rir do que pensou ser um delírio da cachaça. 

O casal se vestiu correndo, ele deu uns bons trocados ao coitado
(antes acordado por ele do que pela polícia) e foram todos embora dali satisfeitos da vida.  

Porque prazer é algo que quase se vive, pelo qual quase se morre, que se pega com a mão e escapa, que existe e não existe, que aparece e some. Mas que quando acontece deixa sempre uma sensação pelo corpo e pela alma de bem-estar que parece do outro mundo. Ou seria deste ? Pois ele surge no exato momento em que mais estamos na realidade do que somos de verdade.  


Marie Claire

Amou aquela mulher,
o coração se abriu 
feito fecho-éclair.
Tentou entendê-la
lendo Marie Claire.
Não conseguiu.
Afogou as mágoas
em sidra Cereser,
seguido de Epocler.
Passada a frustração,
está novamente pronto
para o que der e vier. 




Jogos amorosos

Você sempre amistosa comigo,
e eu querendo contigo o ardor
de uma final de campeonato...

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O casarão

Era uma vez um casarão da avenida Paulista que nem sabia ao certo o que ou quem era. Estava ali há anos. Até que, do dia para a noite, construíram diante dele um enorme edifício todo espelhado. O antigo casarão então conseguiu se enxergar por inteiro e perceber quem realmente era.

Viu que destoava da maioria por conta de sua idade avançada, de sua estatura um tanto modesta para os padrões atuais, mas, por outro lado, sabia que tinha mais história para contar que seus vizinhos. Os corredores de sua alma eram cheios de lembranças e nostalgia. Ao se observar com mais cuidado percebeu também que, apesar de toda vivência, precisava ainda assim de uma garibada a fim de sobreviver naquela selva de pedra, repleta de preconceito com os mais velhos. Submeteu-se então a um processo de rejuvenescimento, o famoso retrofit, mais por imposição da sociedade do que por vontade própria.

Enfim, terminado esse processo, ficou mais tranquilo, pensando assim estar livre do etarismo que vinha sofrendo. Porém, no momento em que ele se encontrava em relativa paz e dormia tranquilo, numa noite de verão, não é que o colocaram no chão, num processo quase relâmpago de demolição?

O antigo casarão ainda teve tempo de ver sua vida inteira desmoronar diante do espelhado prédio vizinho, aquele mesmo, que ficava diante dele, do outro lado da avenida, e que meses antes o apresentara a si mesmo num processo complexo de autodescoberta.

O casarão saiu de cena para dar lugar a um outro edifício espelhado, construído em seu lugar, e que agora vive uma competição narcisista com seu vizinho espelhado, numa disputa de vaidade e aparência. E assim, quem sai perdendo é a paisagem paulistana, cada vez mais egocêntrica, sedenta por jovialidade, e também para não deixar qualquer resquício de memória para as gerações futuras.  

Profundidade

Jazz e ass precisam ser sentidos em profundidade, nos improvisos dos metais e nos sempre previsíveis gritinhos de ai.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Após a tímida mordida

Quem disse que o sopro do amor também não sai do interior de um pastel quentinho, como se lá de dentro libertássemos com tímida mordida uma porção de anjinhos ?

Borracha

Será que a borracha
é feliz, apagando 
as ideias dos outros ?
Será que faz terapia ?
Ou será que se morde
de raiva vendo que
ao destruir o pensamento
alheio morre pouco a 
pouco esfarelada
no chão, na mesa
e na pia ?



Escolhas

Aquele poesia no metrô calou fundo no sujeito,
que meio sem jeito, deixou três trens passarem
Sentou-se, sentiu saudades dela 
e, em vez de embarcar na linha verde,
voltou quase correndo para a amarela.
Sentir saudades na multidão
não é algo fácil de superar.
E quando isso acontece
o melhor que se faz
e voltar pra trás,
qualquer que seja
a linha,
o itinerário,
apesar do 
horário. 
É uma aposta 
que se faz:
Pode-se tê-la
em breve, 
nua, ou então,
fazer o quê ?
Dormir na rua.

Recepção

A diferença entre 
ser tachado
de tarado
ou ousado
não está no 
ato em si,
mas na
resposta 
do outro 
lado.

Estilhaços

Depois daquela briga séria
foi como se o iPhone tivesse
caído no chão.
Continuamos nos falando,
fazendo os mesmos
joguinhos, mas
nunca mais foi a 
mesma coisa.
Agora convivemos
com o risco 
iminente de 
nos machucarmos
no vidro estilhaçado.
Além do que,
aquilo que antes
era o objeto de 
nosso desejo
- nossa gostosa relação -
hoje não passa
de algo que 
não vemos a
hora de trocar 
por outro, uma nova
versão, mais
segura, mais interessante, 
quem sabe ?
E para que isso 
ocorra, o bom 
mesmo é
que esse iPhone imaginário se 
espatife de vez,
em outra queda
inesperada (estrategicamente
planejada ?), 
ou num rompante
de raiva, raiva
porque nada
voltará a ser 
com antes.
Aquela queda,
aquela briga,
só nos mostrou
que apesar 
de tantos 
sonhos embutidos,
éramos frágeis.
Sentimentos sinceros
em frágeis corações de vidro.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Questão

Por que é que nessa vida alucinante
as gargalhadas só pegam na manivela
enquanto as lágrimas descem de
escada rolante ?

Oração pelas crianças

Deus bondoso, proteja os meninos e as meninas da dura realidade, que também não é a verdade. Guarde a esperança no coração de cada um deles e a força para sempre voltarem a seus castelos mágicos e a suas casas na árvore. E que a cada reencontro eles sempre sintam aquele friozinho na barriga ao enfrentarem bruxas e dragões. E que saibam que nesse mundo só deles, as lutas de espada não machucam, as flechas passam raspando e ninguém sai ferido. E que ao final da batalha, todos possam se sentar à mesa para um delicioso chá da tarde, com muitas rosquinhas de nata e bolo de chocolate. E ali, naquela democrática mesa alegre, que se divirtam todos: meninos, meninas, bruxas, dragões, dinossauros, mosqueteiros, índios, soldados e o sempre companheiro cãozinho, que aos pés da mesa, então se deitará para dormir seu sono cheio de paz, dentro de um sonho de criança. 

Relacionamento

Nada mais natural do que a trapezista do circo ter colocado no Facebook
que estava num relacionamento nada sério com o palhaço do circo.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Amor e guarda-chuva

Dizem que o amor
dura o tempo que for preciso.
Décadas, dias ou apenas um mês.
Lembro-me do meu até hoje
embora ele tenha durado
menos que um guarda-chuva chinês.







quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Poema pueril

Sempre penso numa lágrima
que se recusou a ser de tristeza.
Mas também não queria
ser de alegria.
Escorreu de um dos olhos
de improviso,
de bobeira,
depois de um espirro
por causa da poeira.

Poesia é lápis

Aquela era uma poesia
que nasceu tão pronta
que já chegou tonta.
Cheia de si.
Poesia não é caneta.
Poesia é lápis
que se aponta 
na doação diária
do próprio objeto
da escrita. 
E que se dissolve
aos poucos,
mas que até o fim
sempre está ali,
para a construção,
no papel,
da essência que
havia nele e também
da essência 
que havia em ti.

O esquilo e os pronomes

Era uma vez 
um esquilo 
que aprendia
os pronomes:

Eu 
Tu 
Ele
Noz (ops !)

E lá se foi 
o bichinho
com o seu
"prêmio",
que ele preferiu
roer sozinho
com seus dentinhos
a deixá-lo
ser massacrado
pela Língua
Portuguesa,
sempre às voltas
com impiedosos
dentes de engrenagem.

Poetas alados

O poeta sempre quer voar mais longe,
e faz solitário seu voo migratório.
E é só lá no alto, 
vendo todo o mundo
bem pequenininho
que percebe
que nesse voo
nunca está sozinho.
Poetas alados
por todos os lados
seguem juntos
fugindo das dores do amor
ou indo ao encontro de
ninhos onde sempre são amados.

"Santo imposto"

Se nosso "santo imposto"
só faz "milagres" 
para alguns políticos
e afins,
só mesmo clamando
a "s(ã)onegação",
que com urgência,
rogue por mim !


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A lei ao léu

A esperança balança
de repente,
como se não soubéssemos
que jamais
seria diferente.
Mas como diz a lei,
adaptada 
ao conveniente:

Olho por olho...
dente por dente
embargos infringentes...

Não desça do salto

Àqueles que torcem 
pra te ver 
pelas costas,
exiba sempre
um lindo 
número "10".

Saber escolher

Há cafés que não precisam ser tomados,
com pessoas com as quais não se deve
perder tempo.
Mas há chocolates que precisam ser sorvidos,
com pessoas especiais,
que nos enchem a vida de alegria,
quem contam suas dores e vitórias
na medida certa.
Que sempre lembram de 
um poema,
que cantarolam uma
música especial,
e que quando vão embora
deixam a certeza 
de que logo outros 
encontros deliciosos
virão.
Ao pessoal sincero do 
chocolate: até breve,
até a próxima, até sempre.
Às pessoas do egoico
café diga simplesmente
que está seguindo a sua
sina, e que torce
para não nunca mais
ter de encontrá-las
na padaria da esquina.



terça-feira, 17 de setembro de 2013

Andar por Sampa é sempre legal

Andar por Sampa
é muito legal.
Mulher boceja na rua
à espera do farol abrir.
Homem peida no 
solavanco do vagão.
O discurso do flanelinha
é envolvente.
E o jovem casal,
ele de boné,
ela de tênis vermelho,
jura amor eterno
enquanto o ônibus
não vem.
O garoto corre
atrás dos pombos
na Praça da Sé,
e um estudante 
de fotografia retrata
o centro velho, 
seguindo os passos
de Cristiano Mascaro.
Os violeiros tocam
as cordas de aço
da viola e a voz
dos três - da dupla
sertaneja e do homem 
da cobra - se mistura
ao barulho da moto 
de mais um cachorro-louco,
que corta a cidade como se
levasse um coração 
para ser transplantado.
O frenesi volta ao 
normal, cadenciado
pelo ritmo do ciclista
que faz entregas.
E sempre se tem a 
impressão de que o
charmoso furgão 
verde do Toalheiro
Brasil vai passar no 
Largo do Arouche.
Enquanto isso,
um homem de paletó
e com azia se esquece
da acidez e toma
um delicioso café nas
proximidades da
rua Boa Vista.
E eu agradeço aos 
céus por poder transitar
por essa cidade enquanto
limpo o cocô de cachorro 
da sola de meu sapato
bem pertinho do Viaduto
do Chá. 
Faço isso já pensando na
São Silvestre, quando 
a cidade para para
correr, e corre 
de si mesma
ou em busca 
de si mesma.
Um encontro 
que se efetiva
rapidamente
todos os dias,
no encontrão
entre aqueles
que querem 
entrar e aqueles
que querem 
sair, assim que
os vagões do
metrô abrem
suas portas.




quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Abrir-se

Você se abriu feito flor,
e eu, feito embalagem de CD.
Tempos diferentes de
se mostrar, de ganhar coragem
para se descobrir, um jogo que
se completa e que enche 
de perfume o ato solene
de simplesmente ouvir. 




quarta-feira, 11 de setembro de 2013

História simples no meio de uma tarde de calor

Hoje eu queria escrever uma história de alienígenas, de ninfas presas em mosteiros guardados por cavaleiros templários, de espadas que soltam fogo e de enormes criaturas aladas que com suas garras exterminam qualquer mortal. Eu queria escrever uma história assim, pois, quem sabe, dessa forma, aqueles garotos adolescentes que vão para o colégio acomodados em suas vans escolares a lessem. Mas não consigo.
                A maior aventura que tenho condições de contar hoje é sobre um garoto do interior, que com seu estilingue errou a lata que estava sobre um dos galhos da mangueira e acertou a vidraça da dona Iolanda, correndo em seguida lá para trás das goiabeiras. Estilhaçado o vidro da janela, nenhuma nave desceu à Terra, as ninfas não se manifestaram, muito menos as enormes criaturas aladas e suas espadas fumegantes. Apenas dona Iolanda, que de tão furiosa parecia cuspir fogo pelas ventas.

                Passada a raiva da mulher ranzinza, naquele calor preguiçoso da tarde, uma manga foi ao chão, um porquinho do quintal começou a comê-la e o garoto do estilingue, à essa altura, não se lembrava mais da arte que fizera. Ele só queria mesmo era nadar naquela água quase morna do riacho, que passa bem atrás da plantação, no fundo de sua casa. Ali sim, ele mergulha em sua imaginação pensando num mundo possível, onde tudo acontece e disco voador às vezes não pega de manhã porque a ninfa, pra se vingar dos templários, adultera o combustível com pó mágico vencido e vai para a horta, só pra cortar melancia em fatias precisas com o raio laser da espada Jedi que possui.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Revirar por dentro

Depois daquele
“atroz verão”
minhas 
"melan-cólicas” 
manhãs de inverno
nunca mais
foram as mesmas. 

domingo, 8 de setembro de 2013

Foto PXB

Aquele barco ao longe 
que carregava um solitário monge
era amarelo. O céu, azul,
a água do mar, verde 
e a roupa do monge, laranja,
em sintonia com a cor do 
pôr do sol.
E olhando aquela imagem
tão colorida senti 
não ter nas mãos
uma câmera para fazer
uma linda foto em preto 
e branco. Para mim,
a vida é jogo de 
xadrez que
se completa com 
luz e sombra, em que 
reis jamais deixarão o tabuleiro
e tudo o mais, superada a estratégia,
perde a importância.




sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Dança


A tristeza quando vem se encostando,
quer ser tirada pra dançar.
E se isso acontecer,
será que a alegria lhe fará par ?
E o que conversarão
as duas durante a valsa ?
Quem convencerá quem ?
Dançarão as duas
tango, rock ou 
terminarão na salsa ?


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Vida besta itinerante

Ele entrou no vagão,
esquivou-se de duas encoxadas,
tentou ler um livro,
não deu.
Encaixou o braço entre dois peitos,
e esse foi seu maior feito até a Consolação.
Consolação do metrô, dele, e por que não dizer dela ?

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Juramento

Confesso minhas falhas.
Confesso e até juro.
Mas juro de maneira simples.
Não juro sobre juro.
Meu juro é discreto, simples,
não é juro composto.
Não confesso minhas
falhas com alarde de 
vocativo.
Prefiro fazer uso do
até dispensável e
sempre circunspecto
aposto.



Eu não me entrego

Eu não me entrego, não.
Se me vir cabisbaixo
é porque estou 
procurando dinheiro
no chão.

Autoajuda

Na minha autoajuda,
em vez de 
O Monge e o Executivo
preferia ler
O mijo e o ejaculativo.

Necessidade de ouvir

Me liga pra falar
de paz,
pra contar que 
tem um ás na 
manga,
que também 
detesta canja,
que a ligação 
não tem tarifa
ou que simplesmente
ganhou um ovo de Páscoa
na rifa.
Mas liga.

Trem, um grande intestino

O trem é um grande intestino,
grosso ou delgado,
dependendo do horário,
onde há calor humano,
mas falta 
afeto e afago.

O trem é um grande intestino,
que se nutre de nossas 
necessidades e sonhos
num entra e sai de
se encher e esvaziar,
ficando para o final,
ato sistemático
de evacuar.

Daí nossa cara de bosta
ali dentro
movimento nervoso
de nossa quase obrigatória
missão de 
ir e chegar,
saindo do aconchego de nossas 
casas, que é nossa vida privada,
para a privada social onde
somos despejados
e permanecemos
até o dia chegar ao seu final.

Engolida a labuta,
vamos nós para nova
digestão, novamente 
com cara de bosta,
agora cansada,
se espremendo no 
vagão.

Porra adestrada

Era uma vez
uma porra-louca
que começou a incomodar.
Meteram-na no 
antidepressivo 
pra se acalmar.

Hoje, essa 
porra-louca
nem porra é.
Virou leitinho
bem comportado
já é quase energia,
que não sobe
mais à cabeça
e nem ousa
deixar aquilo
em pé.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Pimenta/leite condensado

Pimenta dedo-de-moça
misturada com leite
condensado.
Assim é você,
ou seria você
na indefinição entre
o assim e o assado ?
Assim é você, 
ora ardidinha que dá vontade
de morder, mas com receio,
e o risco de até chorar,
ora toda melosa que 
se entrega por inteiro
e que para o bolo de nós dois
não existe um melhor recheio.
O que mais me agrada
nisso tudo é que nessa
inconstância eu sempre
estarei no meio.


Estorvo

Quando a gente está
onde não deveria estar
é por que em algum
momento nos faltou
fé. Fé para dizermos não.
Fé para não aceitarmos
aquela dança.
E quando agimos
covardemente assim, 
no baile
da vida parecemos
um estorvo
esbarrando nos 
outros ou simplesmente
lhes pisando no pé.



segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Mamilos

Seus mamilos,
quando endurecem,
merecem a devoção
de uma mordida
que se desfere
com a ternura
e a pressão 
exatas, a exemplo
da que cuidadosamente
desferimos ao iniciar um
sorvete Häagen-Dazs
com cobertura de chocolate.


Dias cheios, dias vazios

Há dias vazios, feito bexiga esquecida
que não foi enchida para a festa infantil,
como há dias cheios, repletos de
recordações,
feito estômago de sucuri
que engoliu um boi.
Feito vaca farta
de capim,
quando as boas 
memórias vêm para
o presente, e parecem
vivas, atuais, palpáveis.
E é esse "ruminar de 
reminiscências" que
nos ajuda a empurrar
a cortante inquietação 
da vida para 
depois, para um 
futuro provável,
no qual poderemos
ser serpentes ou 
bois, engolidos
ou saciados,
dependendo 
de que lado
jogará o 
destino 
o nosso
dado.

Vaso escolhido ?

De que adiantava aquele religioso se achar um vaso escolhido, se a água que trazia em seu interior era ruim e ressecava qualquer flor que tentasse entrar em seu coração ?

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Em bom português

Era uma vez um garoto que entrou no ônibus e disse:

- Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, mas eu estou aqui, pedindo uma ajuda.

Aí, um sujeito catedrático, daqueles chatos que esbanjam cultura corrigiu o pobre garoto:

- Você poderia falar de uma forma mais culta, utilizando-se do futuro do pretérito. Você deveria dizer assim: "eu poderia estar matando, eu poderia estar roubando, mas estou aqui lhes pedindo algum dinheiro". Veja que estamos falando no condicional. Nós, passageiros, poderemos ou não lhe dar alguma ajuda.

Então, o moleque, que não era bobo, nem nada, fechou a cara e disse, num futuro do presente que foi entendido por todos:

- Eu poderei roubar, eu poderei matar se vocês não me passarem a grana. 

O garoto falou isso enquanto sacava uma arma. Cerca de dois minutos depois, desceu no ponto seguinte e sumiu no mundo, cheio de carteiras, celulares e até um laptop.

Antes de deixar o ônibus, contudo, ainda gritou em bom português:

- Perdeu, busão!

E o catedrático, lá de dentro, sem se dar por vencido, corrigiu o garoto:

- Perderam, passageiros do ônibus! Vai estudar moleque!

E o pessoal daquele coletivo, já de saco cheio e sem seus pertences, mandou o tal catedrático pros quintos dos infernos, em todos os tempos verbais.



Táxi

De repente, a palavra não vem.
Ela tem esse direito.
E você fica ali,
parado, no ponto da inspiração
praguejando, olhando para
o relógio, olhando para o chão.
Olhando para a rua...
Espere, espere.
Mas nem pense em 
tomar um táxi que 
já vem cheio 
das ideias fáceis
e previsíveis.
Não faça isso
porque eu já fiz.
Você vai perceber
o que lhe digo
neste texto que
escrevi, um enrolar
de ideias para
chegar a lugar nenhum,
e que me custará
muito caro.