sábado, 29 de agosto de 2020

Sobre um casal de velhinhos

O velhinho e a velhinha seguem de mãos dadas pela rua após a chuva de verão. Temem escorregar, temem que um escape do outro. Temem que os escorregões ao longo da vida, de ambos, se levantem. De repente, ele pisa, de propósito, na poça d´água, que molha as canelas finas da velhinha. Ela, de pronto, golpeia o companheiro carinhosamente com o guarda-chuva já recolhido. Os dois riem, se sentam num café e ficam olhando o mar.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Choro pré-datado


Fez-se de durona
e não chorou na frente dele,
pré-datando um choro
que nunca mais
conseguiu descontar.
Isso porque,
a partir dali,
ao deixar o tal sujeito,
sua vida foi só felicidade.

Uga, uga

Um homem das cavernas
voltou no tempo e caiu
no meio de uma
torcida de futebol.
Sem saber o que acontecia,
ele grunhiu: uga, uga.
E aqueles torcedores,
sempre toscos, 
nem se assustaram, 
completando o uga, uga
do
 homem de Neandertal 
com um sonoro: é campeão!.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Não é não!

O príncipe veio despertar 
a Bela Adormecida. Quando 
chegou bem perto para beijá-la
viu que ela trazia escrito 
em seu braço: "Não é não!".
Ele recuou assustado,
deu meia-volta e foi-se
embora. E Bela Adormecida 
dormiu para sempre,
mas em paz.

Duque

Ela o chamava de "duque".
Não como título de nobreza,
mas porque havia passado
longe de ter tirado a sorte
grande na loteria.

Fim

Ele colocava
"Fim" ao término
de cada poema,
pois não sabia
que poema não 
termina nunca.
É uma proposta
em aberto.
Mas apesar disso,
era sempre
"finalista" 
em concursos 
literários.

Recado

Escreveu um recado 
na palma da mão:
"Lave as mãos".
Lavou as mãos.
Esqueceu o recado.

Prego na parede

Ele bateu o prego 
para pendurar o 
espelho no banheiro.
Ao olhar-se nele
viu-se apenas do
pescoço para baixo.
Tinha fixado o prego 
baixo demais.
Então, disse a si mesmo:
"Eu sempre 
me subestimando".

Inadimplente

Paixão verdadeira
é aquela que a 
primeira é
à vista e
depois a gente
se torna
inadimplente
dessa pessoa
para o resto
da vida.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Com durex

Ele abraçou o mundo
que sutilmente
lhe colou um 
"chute-me" 
nas costas.

Árvore genealógica

Ela ergueu a árvore genealógica 
da família. Observou a solidez
dos troncos e então montou
um balanço num dos galhos. 
Agora, para retribuir o amor 
de seus antepassados,
sempre que sobra um tempinho,
elege um deles, o coloca 
no balanço e o empurra por horas,
enquanto mentalmente 
ouve suas histórias

Cão relativo

Aquele cachorro era tão 
inteligente, mas tão inteligente,
que quando eu pensei que 
ele rosnava pra mim, 
com seus dentes à mostra,
boca salivando e o 
som costumeiro
de "E...E...E...",
e que iria avançar 
e me morder,
não fez nada disso.
Apenas completou 
o seu rosnado: 
"E... E... E=mc2". 


quarta-feira, 1 de julho de 2020

Doente de amor

Eu, doente por ela.
Ela, atração quase nula.
Eu: Você também em ama?
Ela: Vide a bula.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Infecção

Aquele anti-inflamatório
mascarou a infecção.
Daí ela começou a se achar.

Ter ou não ter

Será que alguém,
revirando os escombros 
do caos, com minha
caveira na mão, se 
atentará que tive 
dentes obturados?

Força para si

No momento da crise,
o sujeito ficou 
tão do seu lado
que teve de vender
a moto para comprar
um sidecar.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Orégano

Sempre tenho a impressão de que 
sou pequena partícula dentro 
de uma grande pizza, sobre a qual 
Chef do Universo teve o capricho
de polvilhar estrelas em vez 
de óregano. 

Memória

Meu Deus, quando eu for só memória,
que eu ainda mantenha a lembrança 
de minha querida placa-mãe, 
sempre disposta a curar meu
hardware e a entender meus
softwares, livrando-me de tudo 
o que seja periférico 
em termos de amor.

Carros

Ele era sozinho e já tinha um carro legal,
mas aí comprou um ainda maior.
Não conformado, comprou um outro
maior ainda. Depois outro imenso.
Até que, de repente, se viu dentro 
de um carro enorme e começou a chorar
feito criança ao se sentar no banco 
do motorista e não alcançar 
o volante nem os pedais no chão.

terça-feira, 3 de março de 2020

Sobre balas e trem

Entraram no trem o vendedor de balas e o cantador. Trem cheio. Rapaz começa a oferecer bala no trem. "Olha a bala, olha a bala." Cantador dá início à música Trem bala. "Não é sobre ter todas pessoas do mundo pra si..." Naquele exato momento, os dois - vendedor e cantador - passam a se ver como adversários, pois os passageiros darão dinheiro a um ou a outro. Então, eles se desentendem e aí tem bala no trem, de verdade. É aquele corre-corre, empurra-empurra, viola na cabeça, balas espalhadas, arma na mão. Mais tarde, naquele mesmo dia, os passageiros que presenciaram a briga e que conseguiram sair ilesos do vagão, ainda assustados, mas já em seus lares, seguram seus filhos no colo, como na música e suspiram um tanto tristes, pensando em como a vida poderia ser mais doce se só existissem balas de caramelo e ninguém tivesse de se sujeitar a subempregos para ganhar a vida.