quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Amigo imaginário

Um dia, o amigo imaginário da menina cresceu e virou namorado imaginário. E de gigante que era, ficou pequenininho, cabendo hoje na ponta do dedo. 

Ranking

Num mundo todo ranqueado,
e seu eu não for à frente,
nem atrás, mas simplesmente
ao teu lado?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Festa?

Vendo a festa da vida dos outros,
a gente pensa que é tudo "bem-casado",
mas basta olhar um pouco mais
pra se descobrir uma porção de
"brigadeiros".

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Reposicionando

Vivia em estado de graça, 
até que começou a cobrar.
Aí sua vida virou um inferno.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Mar de rosas

Se sua vida não é um mar de rosas,
pelo menos, os riscos de ter sua 
boia de cavalinho furada por um espinho
são bem menores.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Pichador solitário

Ele gostava de pichar muros, mas como tinha alguns valores morais, sempre sentia uma culpa dos diabos logo após seu ato transgressor. Então, teve uma ideia: só picharia as portas de correr de estabelecimentos comerciais. Passou a agir assim, e nunca mais se sentiu culpado.

Agora, durante o dia, enquanto seus rabiscos de tinta adormecem enrolados em folhas de aço, ele caminha prazerosamente sob a luz do sol, ciente de que seu "trabalho artístico" está ali, incógnito como ele. Entende que suas pichações são tesouros escondidos.

E à noite, quando não sai para pichar, passeia solitário pela cidade apenas para apreciar a sua "arte", uma "arte" que se destina a poucos, aos notívagos, aos bêbados, aos amantes, aos poetas e aos gatos famintos.

É bom lembrar, que quando ele está pichando, muitas vezes, acaba se apaixonando perdidamente por seus traços, sempre "tão perfeitos" e carrregados de profundas mensagens codificadas.

É nessa hora que a vaidade o convida sedutoramente a sair do anonimato, a se revelar como o "grande artista" que é, mesmo com o risco de ser preso pela polícia e de tomar uns cacetes dos comerciantes.

Mas quando isso acontece, é a própria lata de tinta spray que o traz de volta à realidade e ao anonimato, ordenando simplesmente que ele se cale, dizendo assim: xiiiiiiiu!!!


Sobre as cores

Ah, como a vida fica mais pálida
quando as cores primárias crescem
e entram na faculdade...

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Cartilha

Antes, na cartilha, na lição 
do "v", vovô via a uva.
Mas hoje, com "v",
também de Viagra,
vovô vê a vulva
e dá três, sem 
reclamar,
indo da gramática 
à aritmética
na maior animação.

Música que só pensa naquilo

Zzzzzzzzzzzzz. Letra de funk escrita logo após o orgasmo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Um homem de "blém"

Ele se dizia uma pessoa de "blém" e
todos achavam simplesmente que
ele não se dava bem com a língua
portuguesa. Até que um dia chegou 
dizendo:
- Achei uma mulher de "blém". Vamos
nos casar.
Ninguém deu muita bola. Casaram-se.
E não é que geraram um lindo sino,
que já chegou fazendo um barulho
danado.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Questão de fé

Era uma vez um religioso em quem
muita gente depositava enorme fé.
Só que ele tinha uns rompantes 
de cantor de axé.
Assim, quando, durante um culto
ao ar livre, gritou animado:
- Tira o pé do chão!
Vários fiéis saíram voando feito
bexigas coloridas ao vento.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Burocracia

Eu quero colo,
você, protocolo.
Assim, 
enquanto eu gozo
na hora "H",
você libera alvará.

Relógio

Não, não, o relógio não está parado.
O ponteiro que é de bússola.
Por isso, esta é a hora e a direção.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Ver o trator

Às vezes, levar uma criança para ver o trator trabalhar, 
no meio de uma tarde abafada,
numa cidadezinha onde quase nada acontece,
não deixa de ser um ato de amor.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

domingo, 2 de agosto de 2015

Times

Com a evolução do futebol nos Estados Unidos
e a crise de credibilidade na imprensa internacional,
em pouco tempo vai dar mais gosto ver os 
times de Nova York 
do que o 
New York Times.

Promoção

Pensei que fosse legal
um novo cargo.
Ganho mais "cacau",
mas estou mais amargo.

questão interna

Se me tornei um ateu
em relação ao amor...
Por que é que ainda 
rezo em tua cartilha?

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A princesa e o sapo

Aí o sapo,
após o beijo
da princesa,
virou um 
belo cisne.
Sorte do sapo,
azar da princesa.

Patinho feio

De repente,
o patinho feio 
virou príncipe.
Deu várias braçadas,
sumiu do lago 
e ferrou com 
a história.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Poesias e poesias

Pediu-lhe um dedinho de prosa
e ela lhe fez um fio terra.
É que, enquanto ele buscava
palavras intangíveis,
ela queria mesmo
era poesia concreta.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Sobre o tempo

O tempo vai escapar de nós,
por mais que queiramos contê-lo.
Mas que ao escapar, 
e ele vai escapar, mesmo,
que leve no corpo as marcas
de nossas unhadas
como forma de
dizermos a ele 
que tentamos 
segurá-lo entre nós.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Falando sozinho

Tentei lhe contar o que sentia,
mas você me disse "não".
O jeito foi dizer para o 
meu pinto:
"fala com a minha mão".

A falta que a crase faz

Era pra comer à vontade,
mas por falta de crase
comer a vontade e...
desanimou de vez.

Querendo racha

Assim que me masturbo,
saio do modo turbo
e volto para o convencional.
E nada mais me excita
numa cidade normal.
Fico assim até que
estreie novamente
dentro de mim
mais uma edição
infindável de meus
desejos,
cada vez mais 
velozes,
cada vez
mais furiosos.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Lápide

Era uma vez 
um epitáfio
que não 
queria morrer.
Então virou 
poesia,
e todo dia
estendia
sua vida 
sem totalmente
se resolver,
por mais 
que o poeta
o lapidasse
na tentativa
desesperada
de enfim
levá-lo 
à lápide.

Pedradas

Até as pedras se encontram,
atiradas de estilingues
pelos garotos analfabetos
bem na cabeça da 
secretária bilíngue.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Poesia de pé quebrado

Como poeta, 
queria um mote.
Ela queria motel.
Mas a bendita
rima não 
saía
pois o "L"
que faltava
não era
"ELE".

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Minha língua

Em meio a tantos
"listenings" e
"Listerines"
ardem meus ouvidos
e minha boca,
tão sedentos
de ouvir e 
de declamar
um poema 
feito em 
bom português.

Consumido

Ele teve de se ralar 
para vencer na vida.
Só que não era gente, 
era queijo. Morreu.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

DR76

Discutam a relação,
mas se forem sair 
na mão,
façam o que faço,
calem os insultos
com beijo e se
apertem firmes 
no abraço.

Pelado

Enquanto a única roupa que tenho seca no varal, 
pago juros sobre o direito de andar pelado pelo mundo.

Experiência

Depois de anos de estrada,
descobre-se num momento:
ah.. como é bom parar
no acostamento.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

DR

Disse-lhe, 
com voz
firme:
"Decifra-me
ou te defloro."
E o que ela menos
queria naquela
hora era decifrar 
algo.
Hoje estão juntos
mas vivem em 
discussão eterna
da relação.
Ela agora busca
saber quem é o
cara que dorme
ao seu lado, 
um poço de
segredos,
dogmas
e enigmas.


Chute-me!

Ô bosta!
Quando abracei
o mundo,
ele colou 
papel 
em minhas
costas.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Sobre a bola e linda moça

A moça linda não 
lhe dava bola,
mas ele ainda
tinha a bola,
que achava linda.
A bola, por sua
vez, não achava
nada sobre a 
moça linda, 
ora bolas.

Desvio de caráter

Meu desvio de caráter
não é como o desvio 
que faz a bola em 
chute do Roberto Carlos, 
ou do saudoso Didi e
sua "folha seca".
Fosse nessas proporções
e eu seria um enorme depravado.
Meu desvio de caráter
é sutil como um chute
em que a bola caprichosamente
resvala nas luvas do goleiro,
e apesar disso segue 
com efeito quase imperceptível o seu caminho
rumo às redes. E quando isso
acontece, "canalha light"
que sou, comemoro mais um gol
e corro para muitos
diferentes abraços.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Constante na inconstância

Faço selfies 
freneticamente
pra descobrir que 
sou uma constância 
de "de repentes".

Simples

Criança é a gente sem burocracia.

Como cachorros que brincam com bolinhas

Quando nos encontrarmos,
de novo, depois de anos,
que nos tornemos bobinhos
como cachorros que correm
atrás de bolinha de borracha colorida,
para rolarmos no chão,
brincarmos, rirmos, nos sujarmos, enfim.
Pois do contrário, se
trouxermos para 
esse piquenique
apenas nossos títulos,  
conquistas, formalismos e amarguras
nem chegaremos
a nos sentar na grama quente
nessa tarde ensolarada,
ao lado da linda toalha
xadrez vermelha e branca,
repleta de guloseimas.
E esse nosso encontro, 
depois de anos, 
será uma bosta.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Respeitar para não tê-los

Vontade dentro do peito
de pegar no seu peito,
peito, peitos.
Mas tenho receio,
seio, seios.
Tem vencido este
segundo e o que
me resta por
você é
respeito, 
peito, peito.

CEO no cio

Quando um CEO está no cio,
apaga com mais trabalho
o pavio 
ou sai da sede
imaginária 
comendo 
novamente a
secretária?

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Pequenas crônicas de uma eterna São Silvestre 5

Foi durante o almoço de Ano Novo que Denis, bastante acima do peso, prometeu aos familiares que correria a São Silvestre quando chegasse 31 de dezembro. Todos riram de sua promessa e não o levaram a sério. Ele teria de perder uns 30, 40 quilos, e como o pessoal já o conhecia, determinação nunca tinha sido o seu forte. Ficou magoado com a turma de casa e com alguns amigos, mas sobretudo com um cunhado inconveniente, que só aparecia nas festas de fim de ano para chateá-lo.

Como muita gente por aí, Denis não conseguiu fechar a boca, pouco se mexeu, e quando chegou outubro deu início aos treinamentos, por obrigação, mesmo. Eram pequenos trotes no parque perto de sua casa: corria, andava; andava, corria; andava, andava e praguejava porque estava acima do peso. Não tinha a mínima motivação, a não ser a de esfregar a medalha na cara dos familiares no próximo almoço de Ano Novo e, sobretudo, na fuça do cunhado chato.

Mas Denis se inquietava: será que conseguiria completar a prova? Será que venceria a subida da Brigadeiro? Será que sofreria um infarto bem em frente ao Teatro Muncipal? O dia da corrida estava se aproximando, treinava desanimado e nem as luzes de Natal espalhadas pela cidade o estimulavam, uma vez que havia desembestado a comer panetones e bombons, e tinha ganhado até alguns quilinhos por conta das festas de confraternização da firma.

Enfim, chegou o grande dia. A família, em comitiva, foi assistir à prova na avenida Paulista. Diziam que tinham vindo dar uma força ao Denis, mas ele sabia em seu íntimo que seus familiares queriam mesmo era ver o seu fracasso. Cá entre nós, a família não gostava muito dele.

Largou no meio da multidão e seu coração estava agitado. Gastou parte da energia correndo bem devagar, mas correndo, logo após a largada, na avenida Paulista. Toda a família o aplaudiu enquanto ele passava, mas ele sabia que era por puro despeito. Já no final da Dr. Arnaldo estava ofegante. Tudo doía. O ar às vezes teimava em não vir. E com a alma em frangalhos começou a andar. Caminhava e chorava, de raiva, de decepção, e até de medo de enfrentar a chacota dos familiares no almoço de Ano Novo. Certamente iriam rir da sua cara, mais uma vez.

Porém, a cada lágrima Denis percebia sua alma mais leve. Sempre caminhando, ele começou a prestar atenção à sua volta. Afinal, não era só ele que caminhava. Havia outros, nas mesmas condições, até mais pesados e ofegantes do que ele. Assim, aos poucos, Denis se conscientizou de que estava feliz em participar da prova, mesmo se deslocando com dificuldade, mesmo com todas as suas falhas e vícios. Ele era, sim, corajoso, porque correr a São Silvestre é um feito digno de mérito, e arrastar, com esforço, um corpo pesado ao longo de 15 quilômetros, tendo a plateia por testemunha, é uma atitude que também merece respeito.

Denis subiu a Brigadeiro bem devagar. Havia feito até alguns amigos ao longo do trajeto, amigos que como ele tinham tido a coragem de enfrentar a prova, mesmo acima do peso e com pouco preparo. Um dava força ao outro, e quando Denis entrou na avenida Paulista, já no final do trajeto, seus familiares torceram o nariz e lhe lançaram olhares de reprovação pela demora. Mas, curiosamente, naquele instante, ele nem se importou com as críticas. Havia começado a prova de um jeito, mas agora já era um outro homem. Mais confiante, ciente de suas limitações, porém, com vontade de ir mais longe.

Denis cruzou a linha de chegada dentre os últimos e, vejam só: não participou do almoço de Ano Novo com sua família, nem teve de encarar as chacotas do cunhado inconveniente. E não foi por medo. É que os amigos que ele fez na São Silvestre o convidaram para um churrasco, em que comemorariam o feito de terem completado uma das provas mais tradicionais do calendário brasileiro, e talvez mundial, quando então aproveitariam a ocasião para criar uma equipe de corrida, já pensando num melhor desempenho na edição seguinte da prova.

Pequenas crônicas de uma eterna São Silvestre 4

Correr a São Silvestre é fazer uma viagem como passageiro de si mesmo. É um momento em que o ano todo passa pela sua cabeça, ocasião em que seus sentimentos são atravessados pela paisagem da cidade e a sensação de solidão se destaca no aglomerado de pessoas, todas elas concentradas no ritmo de suas passadas. É quando, no enorme burburinho, fala mais alto o silêncio. É quando lhe chama a atenção uma pequena muda de laranjeira que brotou por entre as frestas de uma calçada, e descobre-se que um copinho de água pode ser demais para quem tem sede de correr.

É quando Elvis Presley se encontra com Ayrton Senna, e um índio só de tanga, penacho e pés no chão supera na subida um outro sujeito que se veste como garçom. Uma disputa que se passa ali bem pertinho do homem-aranha, que ensaia um tímido “olá” ao Hulk, indiferentes os dois ao sósia do goleiro do Corinthians que insiste em fazer selfie a cada 100 metros. É quando se encontra velhos amigos e se faz amizade nova a poucos minutos da largada. É quando Lampião dialoga com Gandhi, e a moça que corre de noiva joga o buquê pelo caminho, desviando com cuidado do vômito quente deixado na Alameda Olga.

Correr a São Silvestre é dizer desaforos no meio da Rio Branco, sem medo de atropelamento, e ter uma sensação de amnésia diante do Memorial. É ler antes da largada um mundo de placas com nomes de cidades, nomes esses que, no auge do seu desespero, no meio da subida da Brigadeiro, lhe voltarão à mente em forma de loucura, de câimbra mental, com perguntas do tipo: “Por que nunca fui a Cerquilho?”; “Piraçununga ou Pirassununga?”; “Onde, meu Deus, ficará essa São Gonçalo do Rio Abaixo? (pra cima do rio?)”; “Como será que o pessoal do Macapá chegou até aqui?”; ou ainda, “Se eu jogar o número de peito do sujeito ali, de Aracaju, será que ganho no bicho?”.

Durante a São Silvestre descobre-se também que isotônico engordura o chão, e que com o novo trajeto, bem no cruzamento da Ipiranga com a São João, difícil será aquele corredor que entre uma respirada e outra não pensará na “Sampa”, do Caetano, com um leve temor de que “aconteça (literalmente) algo em seu coração”.
Correr a São Silvestre é se sentir apenas mais um na enorme massa humana, apesar de cada pessoa ali ter uma história particular com a corrida, seja ela confessável ou não. É saber que lá em casa muita gente da família vai te procurar na TV em meio àquele “bolo” na largada, e quase sempre não vai te achar, embora normalmente o sujeito que eles mais verão na tela será um corredor do continente africano, com suas passadas largas e respiração controlada.

Correr a São Silvestre é verificar tardiamente que tênis novo não serve pra ser estreado na prova, e que “pipocas” e inscritos se respeitam, pois há algo maior em disputa, que é essa paixão pela corrida. Descobre-se ainda que há aqueles corredores que esbanjam vitalidade e que tentam motivar outros já cansados, como há também aqueles que se arrependem logo no início e prometem se preparar melhor no ano seguinte. Há quem paquere, quem não dê a mínima e existem até aqueles que vão discutindo a relação da avenida Pacaembu até o viaduto do Chá.

Ah, há também aqueles amigos que filmam toda a corrida, e aqueles que timidamente erguem o braço quando passam perto das câmeras das emissoras. Há os que correm quase pelados e aqueles que carregam na cintura mil coisas que vão balançando pelo caminho. Há os corredores especiais que são um exemplo de dedicação para qualquer pessoa, e existem aqueles que assistem a prova do lado de fora, mas com o coração apertado de arrependimento de não estar naquela muvuca. 

Enfim, correr a São Silvestre é descobrir que essa cidade tão agitada durante o ano parece descansar nesse dia. A impressão que se tem é de que ela se envaidece de mostrar sua essência, sua história e arquitetura ao povo que passa correndo, compenetrado. Este também é o momento em que as pessoas agradecem a acolhida que essa metrópole proporciona a todos, sejam eles paulistanos, paulistas, pessoas de outros Estados e de outros países, atletas, obesos, torcedores, sedentários, fantasiados ou não, motivados, tristes, alegres, pagadores de promessa ou simplesmente viajantes.


E quando a prova termina, a sensação é de missão cumprida, de ano concluído e ali mesmo, na avenida Paulista, brota dentro de cada corredor uma forte disposição para enfrentar um novo período que se inicia, agora, com as bênçãos renovadas de São Silvestre.

Pequenas crônicas de uma eterna São Silvestre 1

Foi na São Silvestre de 2000, logo na descida da Major Natanael, que os olhares de Roberto e Letícia se cruzaram. Por uma fração de segundo houve uma identificação profunda entre eles. Letícia até deu uma leve piscadela a Roberto, passou por ele e seguiu em frente, ainda com passos moderados. Roberto ficou louco de desejo e queria acompanhar de perto aquela que, possivelmente, seria a mulher de sua vida, a moça que agora seguia à sua frente, com calça de ginástica colada ao corpo, rabinho de cavalo e um perfume inebriante.

Ela seguia ali, a apenas 2 metros dele, ops!, a pouco mais de 4 metros, corrige, a 20 metros, 40 metros... a inalcançáveis 2 quilômetros. Mas Roberto continuava firme, esbaforido, mas firme, na esperança de que ela o esperasse na linha de chegada. Quanto mais a linda moça se distanciava, mais Roberto morria de raiva das vezes em que fora vencido pela preguiça ao longo do ano.
Apesar dessa turbulência interior, e superando seus limites, Roberto se motivava com a chance de reencontrar a tal moça assim que cruzasse a linha de chegada. Mas não foi dessa maneira que a coisa aconteceu. Próximo do fim da prova, ele ainda estufou o peito e retirou um sorriso do fundo da alma para cruzar a linha com uma aparência “tranquila”, na esperança de que a garota o observasse.

Doce ilusão. Letícia já estava longe, talvez até em casa. Recobrado o fôlego, Roberto sentou-se no meio-fio para digerir a decepção, enquanto comia uma banana e apertava firme, com raiva, a barrinha de torrone entregue no kit ao final da corrida.

O fato é que Roberto jamais se esqueceu de Letícia e, de 2000 para cá, correu todas as provas da São Silvestre na esperança, de, quem sabe, reencontrar a linda moça de rabinho de cavalo na descida da Major Natanael, só pra lhe dizer um “oi” e, quem sabe, deixá-la para trás, de uma vez por todas.

É que nessa ânsia por reencontrar o grande amor de sua vida, Roberto tornou-se um exímio corredor, a ponto de talvez flecha nenhuma atirada por Cupido afetar seu coração. Hoje, Roberto se sente muito mais fortalecido e feliz, contagiado, sobretudo, pelo apaixonante ato de amor por si próprio que é o de correr.  

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Na esteira da vida

Encare seus sonhos
como malas.
Assim, se eles 
forem desfeitos,
um trabalho 
a menos
pra você.

Números

Meu olhar 43
não combina
com seu 
sapato 35.
Sou um cara
muto elástico
para alguém
que nunca
desafivela
esse raio
de cinto.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Ensaio que se ensaia

Modelo de olhar misterioso,
que nunca demonstra
a quem detesta
ou ama,
num ensaio 
que sempre se
ensaia, sem que
se experimente
o frio na barriga
de pisar no palco,
sem qualquer manha.
Como serão 
seus mamilos,
seus pelos pubianos?
Como será morder
a sua nuca suada?
Enfim, esse
ensaio que 
só se ensaia
sem que dê 
em nada,
em mim 
mais acende 
chama 
e o desejo
de um dia
saciá-la
plenamente
na cama,
um pouco
de rusticidade
de homem
no corpo 
de uma
sensível
e linda dama.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Esperança

Há quem leve emprestado a nossa esperança
feito livro, e nunca mais a devolva.
E quando isso acontece rumina
dentro de nós aquele desejo 
de que esse alguém, por descuido,
se depare no futuro
com essa nossa esperança,
que sempre será nossa,
só pra perceber entre 
remorsos e lágrimas
que ela trazia em seu interior 
uma delicada dedicatória 
feita com muito amor para 
essa pessoa sempre
tão displicente.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

sexta-feira, 27 de março de 2015

Leveza

E quando a sua solidez
vem de uma porção
de pequenas 
fragilidades, 
você não consegue
mais distinguir se
luta por 
sólidas mentiras 
ou delicadas
verdades?

Lambe-lambe

Lambuzo o teu rosto
com o melhor de mim,
depois sinto-me
retratado no 
meu momento 
mais frágil
enquanto você
simplesmente
me lambe-lambe...

Solução

Às vezes, a solução
vem depois 
de um grande soluço
em meio ao 
choro.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Desembaraçar

Pediu a Deus 
que desembaraçasse
a sua vida. 
Deus, que naquele
dia não estava
muito católico,
meteu a tesoura
naquele emaranhado,
cortou aqui,
amarrou ali,
desprezou partes
enroladas,
deu alguns nós
e assim
desembaraçou
a vida do sujeito,
que hoje sente
que sua existência
ficou mais curta,
deixou de se
lembrar de várias
coisas do passado
e com tantos
nós passou a
mancar de 
uma das pernas.

"Eu te amo"

"Eu te amo" não é coisa
que se diga de cara,
de repente.
"Eu te amo" é coisa
pra se dizer ao final
de uma vida a dois,
quando já se
exaurirem as forças.
"Eu te amo" não deve
ser declaração, mas
constatação de que
ao lado daquela 
pessoa se foi feliz.
Contudo, uma vez
percebido que
se amou,
magicamente
o verbo "amar"
passa a ser
conjugado apenas
no presente,
para todo o sempre,
amém.

Meninos

Senhor, que os meninos 
nunca percam a esperança
e que não queiram 
crescer só pra ver
mulher pelada.
Que brinquem muito,
gargalhem, que se sujem,
que tenham cachorro
e estacionem suas
naves no fundo do 
quintal, amarradas
na árvore, feito
cavalo.
Que não façam a
distinção entre
paçoca, doce de
abóbora ou 
pamonha.
E que na presença
deles, diante de
tanta pureza,
sintamos profunda
vergonha de 
todo o mal
que já carregamos
em nós.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Vício

Acordo e durmo pensando 
no tempo que eu gasto
desejando me deitar contigo,
e sobre como é rápida 
essa boa sensação.
Contudo, assim que ela acaba,
quero senti-la novamente,
mais e mais, numa espécie
de vício que só tem 
me levado para o buraco;
o seu.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Na medida

Entre vales e montanhas
suas entranhas
fazem manha,
e a bunda se arrepia
enquanto
delicadamente apanha.


segunda-feira, 9 de março de 2015

Quando estou carente,
é só você passar rente,
na paralela, 
que de repente,
algo em mim
fica na perpendicular,
feito veleiro
solitário em 
alto mar.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Carícia

Mordo sua virilha por tantas razões,
mas o que mais me arrepia é
te ver arrepiar.

Brilho

Ele havia nascido para brilhar, mas com o passar dos anos
seu bom ânimo já estava precisando de um kaolzinho.

Memória 2

Ah, o primeiro lapso de memória a gente sempre esquece...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Tô só no Face

Tô só no Face.
Tô só, no Face.
Tá osso no Face
pra cachorro.
Vivo no Face
ou no Face morro?
No Face há quem
lata, há quem morda,
há quem balance 
o rabo
e há quem 
a todo custo
o balançar do 
rabo esconda. 
Tudo onda.
Fragilidade 
de isopor
com cara 
de inox.
Mas, se
no inbox 
conversarmos
sem botox,
quem sabe
não prometa 
dar a ti,  
além do meu retrato,
também
meu pau de selfie.




Palavra que quer ser vista

Poesia às vezes
dá azia.
Às vezes sai
como arroto, 
num rompante
só.
Às vezes entala 
na alma vazia
e na garganta
fica aquele nó.

Letra em transformação

Aquele "I" não era 
de anúncio de problemas.
Ele era solução em si,
pois havia ficado louco,
plantado bananeira e
aberto as pernas.
"I" ou "Y",
esse já não era
mais o seu "X" da questão.

Reflexão em meio à rua General Glicério

Meio óbvio descobrir que aquela manicure que deixava 50% dos seus ganhos com a dona do salão, que caprichasse em apenas uma das mãos de suas clientes.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Mosqueteiro solitário

Chamava-se Alexandre e queria ser grande escritor tal qual Alexandre Dumas, o pai, mas se fosse como Alexandre Dumas, o filho, já ficaria feliz. Contudo, gostava de beber, o que colaborou demais para seu insucesso na carreira. E hoje é um mosqueteiro solitário tentando se livrar do vício e da rejeição. Enquanto rabisca alguma coisa nos guardanapos de papel, lá na mesa do bar, as pessoas costumam se lamentar sobre seu destino dizendo apenas: o que será que tanto escreve esse Alexandre... dumas e outras? 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O criado-mudo

Era uma vez um criado-mudo. Mas que era mudo por timidez, não porque tivesse nascido mudo. Um dia, depois de tanto desprezo da parte de seu dono, um magnata de um dessas empreiteiras, sentiu vontade de falar. Assim, procurou a Polícia Federal, fez um acordo de delação premiada e contou tudo o que sabia, inclusive sobre os vários documentos que havia guardado no interior de sua gavetinha, grandes segredos escusos do tal magnata. Pelo fato de guardar as provas desses crimes consigo ele era também, de certa forma, cúmplice. Assim, após a delação premiada, o magnata da construtora foi preso e ele, um simples criado-mudo, teve sua pena aliviada, e deverá passar alguns anos tendo sobre si a garrafa de café de uma repartição pública qualquer, quando pagará sua pena de omissão ouvindo diariamente uma porção de fofocas da turma lá da firma, mas sem abrir a boca.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Pequenas crônicas de uma eterna São Silvestre 3

Passou correndo o atleta enjoado. Passou a moça bonita. Passou o Pacaembu. Passou o cadeirante. Passou o perfume francês. Passou o desodorante vencido. Passou o homem fantasiado. Passou o palmeirense. Passou o corintiano. Passou o torcedor do ABC, de Natal. Passou o grupo de Cerquilho. Passou o sósia do Pelé. Passou, com custo, o quilômetro oito. Passou com mais custo ainda o quilômetro doze. Passou o Viaduto do Chá. Quase não passa a Brigadeiro. Enfim, ir bem devagar na São Silvestre é isso. Um passo a passo, em que tudo passa pela gente, e, enquanto isso, apenas uma coisa passa pela nossa cabeça: "Logo também passo pela linha de chegada, lá na frente".

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Coração limpo

As pessoas deveriam esquecer suas mágoas 
como quem esquece guarda-chuva.

Confiança

Uma vez lá em cima, 
não deixe que o medo o atrapalhe,
porque se ele te dominar
o "Sonho de Ícaro" vira
Ih!Carai...

Causa e efeito

Nada como um dia atrás do outro.
De preferência, brincando de pega-pega.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Assepsia

O poeta quando escreve um poema
veste luvas, óculos de proteção,
máscara, e pega cuidadosamente
a palavra com a pinça para não
se contaminar ainda mais de si próprio.

Reflexão à beira-mar, ou à beira da piscina

Para usar sunga branca:
Pinto ou autoestima,
um dos dois
precisa ser grande.