Foi na São Silvestre
de 2000, logo na descida da Major Natanael, que os olhares de Roberto e Letícia
se cruzaram. Por uma fração de segundo houve uma identificação profunda entre
eles. Letícia até deu uma leve piscadela a Roberto, passou por ele e seguiu em
frente, ainda com passos moderados. Roberto ficou louco de desejo e queria
acompanhar de perto aquela que, possivelmente, seria a mulher de sua vida, a
moça que agora seguia à sua frente, com calça de ginástica colada ao corpo,
rabinho de cavalo e um perfume inebriante.
Ela seguia ali, a
apenas 2 metros dele, ops!, a pouco mais de 4 metros, corrige, a 20 metros, 40
metros... a inalcançáveis 2 quilômetros. Mas Roberto continuava firme,
esbaforido, mas firme, na esperança de que ela o esperasse na linha de chegada.
Quanto mais a linda moça se distanciava, mais Roberto morria de raiva das vezes
em que fora vencido pela preguiça ao longo do ano.
Apesar dessa
turbulência interior, e superando seus limites, Roberto se motivava com a
chance de reencontrar a tal moça assim que cruzasse a linha de chegada. Mas não
foi dessa maneira que a coisa aconteceu. Próximo do fim da prova, ele ainda
estufou o peito e retirou um sorriso do fundo da alma para cruzar a linha com uma
aparência “tranquila”, na esperança de que a garota o observasse.
Doce ilusão. Letícia
já estava longe, talvez até em casa. Recobrado o fôlego, Roberto sentou-se no
meio-fio para digerir a decepção, enquanto comia uma banana e apertava firme,
com raiva, a barrinha de torrone entregue no kit ao final da corrida.
O fato é que Roberto
jamais se esqueceu de Letícia e, de 2000 para cá, correu todas as provas da São
Silvestre na esperança, de, quem sabe, reencontrar a linda moça de rabinho de
cavalo na descida da Major Natanael, só pra lhe dizer um “oi” e, quem sabe,
deixá-la para trás, de uma vez por todas.
É que nessa ânsia por reencontrar
o grande amor de sua vida, Roberto tornou-se um exímio corredor, a ponto de
talvez flecha nenhuma atirada por Cupido afetar seu coração. Hoje, Roberto se
sente muito mais fortalecido e feliz, contagiado, sobretudo, pelo apaixonante
ato de amor por si próprio que é o de correr.
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