sábado, 15 de dezembro de 2018

Um caldo (dois)

Aquele velhinho ainda dava um caldo.
Só que ela, também velhinha,
o esquecera na panela de pressão.
Que explodiu.
E o velhinho morreu.
Dessa forma, eles nunca chegaram 
a namorar,
de fato, apesar da atração
que um dia houve entre os dois. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Tristeza e feijoada

Ela trabalhava num restaurante e por imposição do dono da casa tinha de cantar todos os sábados, durante a feijoada, "tira a calça jeans, bota o fio dental..." E nessa hora seu semblante se fechada de tristeza. Não pela prepotência do chefe, mas porque tinha a bunda feia.

A rosa

Aquela rosa vermelha, que se esforçava, dia após dia, para atravessar o vão das grades de ferro do jardim, queria mesmo era ir direto para a boca de um toureiro, num sacrifício de amor e liberdade.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Mais sobre o amor

Eu não sei,
mas acho que amor
é dose única.
Daquelas que se
toma e joga o 
vidrinho fora.
Depois disso,
sempre
se pensa que 
já é tarde
ou muito cedo,
em meio
a tantos
sentimentos 
placebos.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Pele

A cada dia,
te sinto menos
na pele, 
e mais nas palavras.
Fosse tatuagem,
ainda vá lá.
Mas não.
Palavras soltas no 
ar, que escapam
de dentro 
de um livro
e saem voando
por aí, em minha 
imaginação.
Da próxima vez,
esqueça as palavras.
Prefira emoticons,
que esses, de tão 
genéricos, não 
têm força de traduzir
um sentimento pois
podem ser tudo e 
reduzirem o calor 
de um beijo na conquista
mais bela, num coração
vermelho que escapa
de uma simples 
carinha amarela.



terça-feira, 3 de julho de 2018

Disciplina

Há mais disciplina tática num jogador de seleção oriental que num pino de pebolim.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Poesia inatingível

Há poesias 
que se mostram
quase nuas.
Mas são palavras,
que quando lidas, 
penso serem
minhas,
mas que no fundo,
sempre serão 
tuas.

Marés

Às vezes, estamos 
numa maré,
que nossos 
portos seguros
não passam 
de coliformes
fe...cais.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Última alternativa

Desesperado, foi para o "tudo ou nudes".

Dona de si

A moça que se achava bonita,
não sabia que não era tanto.
E ria sozinha, com desdém,
ao ver nas outras moças, 
diante dela, aquela cara
de espanto.

No trânsito, o pensamento voa

Queria morar naquela cidadezinha
do interior, em que não houvesse o mal
nem botijões de gás fossem furtados.
E que minha namorada trabalhasse
nas Lojas Pernambucanas e eu nos
Correios.
E que nos finais de tarde de primavera,
já em dezembro, pouco antes do Natal,
saíssemos de mãos dadas caminhando
sem pressa pela única praça da cidade,
contornando a igreja e tomando sorvete.

Leveza

Sejamos leves,
não levianos.
Nem que isso
leve
mais de ano.

Nada camarada

Gasparzinho queria ser escritor, 
e tinha talento pra isso.
Mas decepcionou-se ao ser
reconhecido apenas como 
ghost-writer

O futebol dá o tom

Um dia sem futebol é bemol.
Ah, se eu tivesse ido. Sustenido.

Curiosidade minha

Todos os dias passo diante de uma escola, o Instituto Sagrada Família, e nunca vi ou ouvi uma criança sequer. Será que lá só estuda o Menino Jesus?

Liberdade assistida

A internet nos deixou mais free... volos.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Corta

Ela fez luzes,
câmera e
ação. 
Aí alguém gritou: 'corta'.
E ela cortou.

Estações

Ela tinha dentro de si as quatro estações. Ele não, só inverno e verão, feito chuveiro elétrico básico. Assim, nem sempre estavam em sintonia e ele, não raro, devolvia amenidades com o fogo escaldante da paixão ou com jatos de água fria.

Lágrimas

Era uma vez, uma lágrima agridoce que escorregou do olho direito para se apaixonar por uma gota de saliva, mais para salgada, que estava perto do cantinho do lábio superior. Viveriam felizes para sempre, não fosse a rápida ação da língua, que engoliu as duas, de uma tacada só, destruindo o sonho de duas almas simples, com o único propósito de preparar a boca para mais um triste sorriso amarelo dentro da ordem estabelecida.

sábado, 19 de maio de 2018

Fugazes

Um dia, desapareceremos todos, 
feito cheiro de peido,
pois, apesar do fantástico
mecanismo do qual
somos provenientes,
somos voláteis ao extremo
e ainda fedemos.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Negando o prazer

Ela era tão convicta em suas concepções 
de pecado que ao morrer preferiu
ser cremada, já que vivia 
em chamas com seus desejos não saciados, 
a ser colocada na terra que haveria de comê-la.

Conversinha

No ônibus, moço encontra moça.
Beijam-se na boca. Começam a falar
sobre um cachorro no pet shop e
um potinho de plástico esquecido
no trabalho. E eu, pensando em você, 
me pergunto com inveja: onde foram parar as 
nossas frivolidades?

Necessidades

De um lado, 
minhas necessidades fisio...lógicas.
Do outro,
suas necessidades fisio...ilógicas.

A placa

Sob o sol forte, aquela mulher de expressão cansada,
sentada ao lado de um poste, vigiava uma placa de anúncio 
de empreendimento imobiliário.
Só que naquele dia, diferentemente de todos os outros,
a placa desvencilhou-se da cordinha que a prendia
ao poste e tentou fugir. A mulher, então, correu
atrás dela e a deteve quase no meio da avenida.
E naquele dia, somente naquele dia, aquela
mulher sentiu que seu dia de trabalho
havia valido a pena.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Um pouquinho de sua atenção

Ali, na Rua do Comércio,
numa abordagem
repentina e gentil,
ele perguntou à moça:
- Você me daria 55 anos de sua atenção?
Ela acenou dizendo que sim.
E então viveram juntos por cinco décadas
e meia. Até que ele infartou,
cumprindo o combinado, e também
para não parecer chato e pegajoso.

Chavões

Na terra dos chavões,
os soldados do fogo
tentaram debelar
um incêndio dentro 
do poeta,
que os rechaçou
pois estava
fortemente armado
de convicções e
paradigmas.

Retrato falado

A saudade, de repente, a assaltou.
E na hora da queixa, no DP, 
fazer o retrato falado foi a coisa
mais fácil, pois jamais esquecera
o rosto daquele "bandido".

Móbiles

Quero colo. Preciso de colo.
E deitado em meu berço imaginário,
sem conseguir dormir,
eis que me surgem seus seios,
que percebidos ali debaixo
parecem dois lindos
móbiles a me hipnotizar.
E assim, o sono que já 
não vinha, agora é 
que não vem mesmo.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Tratamento de imagem

Quando se trata fotografia, é importantíssimo saber o momento exato de parar
o processo. E feliz daquele que quando lhe perguntam se trata as suas fotos, que responda: Sim, eu as "trato socialmente".

Somos luz

Um dia desapareceremos feito lâmpadas que se queimam de repente no teto da sala, sem que estejamos na garantia.

Amor em construção

O problema não é fazer "armação para o amor". A questão é saber com que concreto você solidificará tal sentimento.

Para pensar

Será que o fotógrafo faz "cara de paisagem",
mesmo clicando um "retrato"?

Sobre a vida

Se fosse "tudo mel"
em vez de "tudo meu",
menos posse.
mais doce.

A loucura e seus palhaços

No circo dos horrores em que se transformou o Rio, o show é com os palhaços
"Ratati e ratatá... ratatá... ratatá.

Dito e não feito

Nosso maior feito
foi tê-lo feito
nosso líder.
Roubou feito
homem 
sem despeito,
e quase não vai
preso,
de tão bem feito
que tinha feito
seu feito.
Tão bem feito.
Bem feito.
Bem feito.
Bem feito... pra nós.

quarta-feira, 14 de março de 2018

quarta-feira, 7 de março de 2018

Na ponta dos dedos

Aquele piano foi tocado de um jeito tão especial naquele dia que em vez de emitir notas... começou a gemer. E a nota sol virou ponto "G".

Na esportiva

Levava a vida na esportiva,
até descobrir que nas
loterias também há falcatrua.

Em casa

O Brasil é o país das incongruências,
em que o sujeito que "mamou" da Casa
e que não construiu as casas que prometeu,
uma vez condenado,
passa a reivindicar a
prisão domiciliar.

Entrega matinal

Quando acordo ainda é madrugada. Vou buscar o jornal, mas antes olho o céu, cheio de estrelas. Então reflito, conversando com Deus: Eu não sei nada
desse céu, não sei nada da formiga, da lua, da floresta amazônica ou do brilho existente no olhar. Também não sei nada do amor nem do sexo. Assim sendo, entrego meu dia em Tuas mãos, Senhor, porque, se depender só de mim, estou ferrado com tanta ignorância.

Leitura

Se eu conseguisse ler os teus desejos feito livro, descobriria que você tem um
marcador de páginas cuidadosamente colocado entre as pernas.

Solo

Andar no fio da navalha
requer solado do pé
parrudo, cunhado
em longas caminhadas
de reflexão feitas
de pés descalços
e em silêncio.

Batuque

Dependendo
da ocasião,
há palavras
que já nascem
batucando
mais bonitas
que coração.
Vatapá, por exemplo.

Tabuleiro

De repente,
aqueles brigões
que queriam
eliminar o
adversário,
se viram
sem ação
diante do
tabuleiro
de xadrez,
com peças
de apenas
uma cor.

Silêncio blasé

Teu silêncio 
me atordoa.
Como se
me dissesse:
Não lhe dou,
mesmo estando
aqui diante de ti
e à toa.


Amigos

Tenho tantos amigos de verdade
que os coloco na carroceria de um caminhão,
ops, numa grande caixa de papelão...
Ops, numa sacolinha de supermercados...
Ops, num bolso...
Ops, num escapulário.

Voar

Aquele garoto
não fez aviãozinho
de papel na escola
nem conseguiu
voar de avião
de verdade.
Sem outra alternativa,
tornou-se um.

Arrastar

Num país que 
se arrasta há
séculos,
por que tanta
estupefação
em mais 
um caso
de arrastão?



Flerte

Pra você 
arrasto a asa,
arrasto no "r"
de amor.
Sou moço
do interior
flertando
em banco 
de praça.

Sopro

Foi o vento que te descobriu,
e eu vi mais do que devia,
descobri mais do que a América.
Como se um tiro tivesse
me acertado em pleno
baile de Carnaval,
transformando-nos em
cúmplices de um mesmo
desejo, Pierrot e Columbine. 

Emoções fortes

Quero emoções fortes,
não aquelas marombadas,
mas as que aguentem
correr ao meu lado
várias maratonas.

Docinho

Sou aquele vizinho
que veio pedir 
açúcar emprestado.
Não para adoçar
o café, mas para
ficar um pouquinho
ao seu lado.

Ouvidos

Com esta boca vermelha carnuda e esses olhos abissais, duvido que você seja "todo ouvidos". 

Mapa

Queria tanto entender teu mapa astral, só que não. Me faltam elementos para compreender uma vegana nascida sob a constelação de camarão.

AK 47

Como é que garotos, que mal frequentaram a escola, conseguem pronunciar tão bem "kalashnikov"?

segunda-feira, 5 de março de 2018

Como te tocar?

Queria te entender
como certas músicas
sertanejas ou pagodes
que rimam
"me beija com cerveja",
mas você insiste em 
ser bossa nova, 
samba sincopado,
improviso de jazz.
E no meio de tantos
enigmas musicais
como faço para 
te tocar, se
você é instrumento
raro que prefere o
silêncio de um museu
à agitação de minha 
boca e de meus braços
nervosos?