quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Luzir

Luzia queria luzir,
mas com esse nome
não luzia,
era a negação 
de si própria.
Tinha a alma 
de um farol 
marítimo 
aprisionada
em singelo
corpo de lanterna.
Por fora se achava
rude,
mas por dentro,
trazia a força da luz
mais terna.

Idiomas, mentiras e morte

Certa vez, um inglês doido veio ao Brasil e começou a matar todos aqueles que mentissem em seus currículos afirmando ler, escrever e falar bem em inglês. Assim, ele deu início a uma série de assassinatos em série pelo país. Detetives e investigadores de polícia se descabelavam na tentativa de encontrar uma ligação entre os vários executados.

Depois de muitas perícias concluíram que, realmente, o único traço comum entre todos os assassinados era o fato de terem mentido em seus currículos sobre suas habilidades com a língua inglesa. Certa feita, em mais uma noite de execuções em série, o inglês doido ficou escondido em uma esquina, com seu rifle, à espera de mais um mentiroso.

A vítima dessa vez era Leonardo, um sujeito comum, de bons princípios, que aparentemente somente cometera o pecado de mentir no currículo. Era noite, garoava, e Leonardo se preparava para entrar em sua casa. Enquanto o jovem se esforçava para alcançar a chave do portão no bolso de trás da calça, o louco inglês fez a mira, contudo, uma fração de segundo antes de ele atirar, Leonardo caiu morto.

Havia sido alvejado fulminantemente por um tiro dado por outra pessoa. Quem se antecipara na execução de Leonardo foi um sujeito, também maluco, que tinha vindo de Madri com o simples propósito de matar todos aqueles que também mentissem no currículo, dessa vez, afirmando ter espanhol avançado.



Aquela força

Quando ele ficou sem emprego,
recorreu a vários amigos.
Nenhum deles lhe deu retorno.
Não é que ele não tinha amigos.
É que ele tinha um problema.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Agridoce

As noites de lua cheia 
foram feitas para os 
amantes que após
manobras excitantes
caem felizes,
exuberantes,
sorvendo o cheiro
agridoce da
mistura do suor
com já vencido
desodorante.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Um espelho e suas reflexões

Era uma vez um espelho que mentia. Nunca mostrava o rosto verdadeiro de quem olhasse para ele. Um dia, ao ver sua imagem num espelho que ele acreditava ser de verdade, ficou assustado. Ele não sabia que era tão feio assim. Desesperado, foi até a janela e se jogou do sétimo andar, espatifando-se no chão. O espelho suicida só não sabia que o espelho onde ele havia se visto também mentia, como ele, pois havia se espelhado nele próprio. 

Marca-passo

Ele não destruía corações. Estava bem mais para safena, mamária, coronária, cuidando do que nos é mais caro. Daí seus anseios amorosos permanecerem "marcando-passo" uma vida inteira.  

sábado, 27 de outubro de 2012

Água de chuva no mar

Era sexta-feira, final da tarde e o sujeito, cansado de mais uma semana sem a menor emoção, encaminhava-se para casa. Era solitário e vivia se questionando sobre a razão de existir. O trânsito estava infernal naquela avenida, cheia de anda e para, e ele empacou com seu carro defronte a um bar em que pessoas alegres dançavam, riam e cantavam ao som de "Água de chuva no mar", levado por uma animada roda de samba.

Ele começou a perceber que a música falava de alguém que havia encontrado um grande amor e que a decepção tinha ficado para trás. Percebeu que há tempos não se divertia, não cantava e que a palavra paixão não existia para ele. Teve enorme vontade de largar o carro ali, no meio da avenida, e ir ao encontro daquela alegria contagiante. Porém, o trânsito começou a fluir novamente. Ele então sintonizou o rádio em mais um daqueles noticiários enfadonhos e seguiu para casa. Seguiu seu caminho mas não era mais o mesmo. Sabia que aquela tristeza era só sua, e que havia pessoas mais felizes que ele, apesar de tudo.

Viu também que seu problema não era tristeza, era mais que isso, era falta de coragem de lutar por uma possível vida feliz, a despeito do questionamento dos outros, que até então tinham regido sua maneira de existir sem se importar com quem ele era realmente.

Na semana seguinte, passou em frente ao tal bar e entrou de uma vez, sendo aceito de pronto pela turma do samba, engrossando o coro. Só percebeu que havia dado um grande passo quando seu coração disparou em razão de não sei o quê, só sabia que era bom, era gostoso, era simples e pronto.

Ah, você pode me perguntar onde é que ele parou o carro naquela avenida de trânsito tão caótico? E eu lhe digo que naquela mesma semana ele pediu a conta do emprego que detestava, vendeu seu automóvel, comprou um barco modesto e havia ido ao samba, de ônibus mesmo, em busca de seu grande amor, que pelo ritmo das coisas, parecia ter encontrado, bem ali na mesa diante da sua.

FIM

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Sobre o destino e a fraqueza humana

De repente, numas das ruas do centro velho de São Paulo ela vinha toda de branco, toda molhada e despenteada. Só que ele comia um churrasco grego. Ela passou direto e ele nem a percebeu. Degustou seu lanche até o final, e ela seguiu seu caminho. Entrou no ônibus e foi para casa tomar um banho quente. Estava marcado pelo destino que os dois deveriam se encontrar naquele dia, no meio da rua, do mundo, no meio da chuva, e que ficariam apaixonados a girar.

Sim, apaixonados a girar, não fosse o churrasco grego e a compenetração que sua degustação sempre requer. Mais tarde, ela e ele, cada um ajoelhado ao lado de sua respectiva cama, pediam a Deus, antes de dormir, que Ele lhes mandasse uma pessoa especial.

Então, ela ouviu sussurrar dentro de sua alma que deveria insistir em sair de branco debaixo de chuva pela cidade, com seu quase irresistível charme, pois ela era um ser apaixonante e muito especial.

Quanto a ele, ecoou uma voz do além no âmago de seu ser, que o repreendeu dizendo que alguém que come churrasco grego com tamanha devoção, a ponto de não perceber a linda mulher de sua vida passar diante de seus olhos, este nada tem de especial, pois é só mais um a se comportar de maneira óbvia e instintiva.

Naquele dia, o destino não cumpriu o seu papel e deve ter se chateado, ele que sempre usou do desejo ardente para aproximar as pessoas, naquela tarde de chuva se frustrou e descobriu, meio por acaso, que se a carne é fraca, a do churrasco grego é muito macia, deliciosa e, como vimos, esta sim, simplesmente irresistível.

FIM

Infâmia sobre um cão

Meu cachorro não late.
Vive cantando
aqui e ali.
Não é um
vira-lata, 
ele tem 
seu "pediGlee".

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Sobre Porquinhos e o Lobo Mau

Certa vez, os Três Porquinhos, que até então viviam em casas independentes, tiveram de morar todos juntos na casa de tijolos de um deles para escaparem do sopro violento do Lobo Mau. Com os Três Porquinhos confinados e a porta fechada, Lobo Mau teve de esperar do lado de fora na esperança de pegá-los num descuido. Ele já havia destruído a casa de palha e a de madeira, e estudava um jeito de entrar na de alvenaria para comer os três. Os dias foram se passando e ele ali fora, faminto, esperando. Aos poucos, com o tédio, a rotina e a incompatibilidade de gênios, os Três Porquinhos começaram a rachar uns paus danados. Como as brigas se acentuaram, o Lobo Mau perdeu o gosto de comer os, agora, indigestos porquinhos. E assim, sumiu dali e seguiu para a floresta, na esperança de que Chapeuzinho Vermelho e a Vovozinha se dessem melhor, a fim de não lhe estragarem também o apetite.

Vento a favor


O vento que sopra a meu favor, 
sopra com uma força de
vento de agosto.
E entre mim e ele
há um prato de farinha
que insiste em 
castigar o meu rosto. 


domingo, 21 de outubro de 2012

Desejos

O desejo se expressa nos olhos 
da pessoa amada, 
mas também nas filas
diante da lotérica
com a Mega
acumulada.


No meio da disputa ou seria a disputa no meio ?

Quando as duas bandas da bunda
disputam a calcinha, quem sai 
sempre ganhando é o rego.

Falando sobre a vida

Quando criança, conversamos com amigos imaginários. Depois, na adolescência, falamos sozinhos, treinando como falar com a namorada. Um pouco mais tarde, falamos feito o homem da cobra em busca de sermos aceitos. Falamos muito também ao lado da pessoa amada e para nos mantermos no emprego. Mas o tempo vai nos calando a boca. A rotina resseca os lábios antes molhados pelos beijos, e o falar vira quase obrigação quando se impõe a discussão da relação. E já no final da vida, quando ninguém nos dá mais a mínima e deixamos de lado os pudores, voltamos a conversar com nossos amigos imaginários da infância. E se naquela época eles brincavam conosco, agora vêm nos fazer companhia até o dia em que sigamos com eles, falando pelos cotovelos sobre mais uma jornada superada, enquanto pouco se falará por ocasião de nosso velório.

Cachorro na rede

Ando meio cachorro na rede. 
Às vezes quero fazer um post, 
noutras, quero fazer no poste.

Alavancagem


Alavancagem é
molecagem com
a língua.
É como se
metêssemos
um pé de
cabra
onde seria
bem mais
oportuno
um Machado
(de Assis).

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Porão da alma

O porão da minha alma está cada vez mais arrumado. Já acho tudo com mais facilidade. Organizei os sentimentos, cataloguei as frustrações, tirei a poeira de alguns bons momentos e até os desafetos, com muito esforço, aspirei-os todos e os joguei no lixo. O fato é que agora, com esse porão iluminado e todo arrumadinho, não tenho mais para onde correr quando quero ficar sozinho na busca de mim mesmo. Descobri que precisamos desses cantinhos escuros, sujos, desorganizados, em que o consciente e o inconsciente brigam, se estapeiam mas que, no final das contas, deitam lado a lado, saciados, bem no meio da bagunça, felizes, resolvidos, depois de terem tido uma maravilhosa noite de amor.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

"Cagando regras"


Quem vive “cagando regras”
limpa com sulfite,
vergé, cartolina
ou tenta tapar
com chiclé ?
Ou será ainda que 
só “caga regras”
porque ao tentar 
controlar tudo,
esquece-se do 
essencial,
que vive lhe 
escorrendo até
os pés ?


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Homem-bomba

Era uma vez, um homem-bomba que, de repente, sem saber como, estava num bloco de Carnaval. Caiu na folia e esqueceu-se de que tinha de se explodir. Acertou o passo, conheceu uma linda mulata, encheu a cara e quando deu por si, estava deitado ao lado dela, no fim da madrugada numa praia do Rio. Apaixonaram-se de cara apesar das limitações da língua e só morreram, numa versão louca de Romeu e Julieta, porque a tal mulata, pra fazer uma graça, simulando casamento, disse cheia de malícia: "E seu eu colocar essa argolinha aqui em meu dedo ?"    

Você está engasgado ?

O momento quando a gente engasga
é o menos propício para se dizer algo.
Mas é nesse exato momento que
somos mais cobrados a responder.
O curioso, quando o pânico 
chega o fim, é que a resposta que 
tanto queriam, todos já conheciam,
e era simplesmente um sim !

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Ao vento

Quando ela começou a chorar,
nem percebi que ventava,
nem percebi que não era por mim.
Eu lhe ofereci um lenço
e paguei o mico.
Por dentro ela sorria,
apaixonada por outro.
O motivo do choro,
nada demais,
apenas um cisco.

Vida de cabeça para baixo

Se a sua vida virar de cabeça pra baixo,
não faça cerimônia.
Olhe a calcinha dela.

Se a gente não cuida do afeto

Se a gente não cuida do afeto,
deixa de fazer festa,
perde o tempo do abraço,
sufoca a gargalhada
e prefere chá de boldo
a marmelada.

Se a gente não cuida do afeto,
deixa de chorar no cinema,
deixa de silenciar 
ouvindo os pássaros
e dentro do vagão,
não percebe tanta
vida que entra a
cada estação.

Se a gente não cuida do afeto,
o coração endurece,
os amigos desaparecem,
e já não importa mais
se o vinho é branco ou
tinto,
desde que o brinde seja
a distância através 
de um sofisticado iPhone 5.




Vidinha besta

A gente vive correndo na esperança de que nos sobre, lá na frente, um tempo para fazermos aquele mundo de coisas triviais que vão ficando pelo caminho. Em nosso frágil raciocínio, no futuro, nos sobrará tempo para olharmos com atenção o rosto de nossos filhos, para ouvirmos com calma as histórias de nossos companheiros/companheiras, para almoçarmos com nossos pais, para tomarmos um café com amigos, para regarmos o jardim, para brincarmos com nossos cachorros, enfim. 

Ocorre que não teremos esse tempo. Isso é fato. Além do que, se ele sobrasse, viria com juros amargos, uma tributação por nossa displicência diante da vida pulsante de todo o dia, sempre deixada de lado. 

Temos de trabalhar como loucos, ganhar dinheiro, vencer na vida. Mas isso não se dá de maneira tranquila, equilibrada. Há a ilusão do consumo, o embasbacamento tecnológico, que faz com que uma tela de computador ou de celular seja mais importante que um abraço, um afago na terra, uma gargalhada escancarada. O engraçado é que quando se é criança tudo é mais fácil, mágico, e precisamos de pouco para ficarmos alegres, em paz. 

Mas, nessa rotina doida, um dia a gente para num hospital e aí, o pingo do soro passa a ditar o ritmo calmo do período. A comida insossa fica maravilhosa e um fio de água que se escorre do algodão pelo canto da boca, nos faz mergulhar em um oásis.  

Bom, vamos repensar a vida atual, de maneira que quando a morte chegue, que ela nos pegue tão entretidos, felizes, fazendo coisas legais ao lado das pessoas que amamos que ela repense a decisão e adie nossa viagem ou então, que leve em nosso lugar, o primeiro executivo estressado que passe por ali. 




segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Tatuagem ?

Se era pra eu ficar em teu corpo feito tatuagem,
deve ter acontecido alguma coisa, sei lá, 
pois fui retirado de sua pele bruscamente
feito emplastro Sabiá.




sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Escrever é necessidade fisiológica

Escrever é minha necessidade fisiológica
que a crítica seca e áspera me faz 
ressecar. 
E com o lápis preso,
tal qual intestino que não faz cocô,
com muito custo só me sai nononono.

Pedindo licença para parafrasear Mario Quintana

Todos esses que aí estão 
atravancando meu trabalho, 
Eles passarão...
Num passaralho!

Estrela

Era uma vez, uma estrela que se encheu de fazer figuração numa dessas constelações da Via Láctea. Fugiu para a Terra e, ao entrar em contato com a atmosfera, diante do atrito, foi ficando redondinha, pequena, do tamanho de uma bola de futebol. Após sua fuga, as entidades que regem o Universo passaram a procurá-la, enquanto ela se escondia pelos mais variados gramados de São Paulo, sempre na condição de bola de futebol. E assim, incógnita, ia vivendo os seus dias, até que, em determinada partida, depois de uma pancada, um jogador gritou: "nossa, até vi estrela !". Ela, ao pensar que havia sido descoberta, tratou de seguir para mais longe e veio parar no Rio de Janeiro. Hoje se hospeda na casa do Botafogo, cuja estrela do escudo, antes solitária, agora tem muito com quem conversar.

Assobio

Ontem na rua, pai e filho puxavam um carrinho cheio de papelão e latinhas de alumínio. Em uma das paradas, o pai começou a ensinar o garoto a assobiar. Ele disse ao filho, em tom professoral: O que eu lhe ensino agora ficará contigo até quando você tiver forças. Nos momentos de alegria, o assobio vai encher de vida o ambiente, e quando vierem os tempos difíceis, eu lhe aconselho que assobie em suas caminhadas solitárias.
Ajuste a altura e o repertório a partir de seus sentimentos. Sei que você vai sentir medo e o assobio lhe será companhia, mesmo que ele tenha de dialogar com o forte vento que também assobiará tenebroso lá fora.
E pra se lembrar dos que se foram, tenta voltar no tempo, assobiando as canções de que eles gostavam. Porém, quando lhe faltar energia e o assobio não conseguir sair mais, de jeito nenhum, sinta-se sublime feito passarinho, pois é bem provável que já esteja se aproximando a sua hora de voar. 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Você é música em inglês

Tentar te compreender
é como tentar entender
música em inglês.
Capto um "love", um "you",
dali há pouco, mais um 
mundo de palavras e 
lá se foi minha linha 
de raciocínio.
Mas, a exemplo da
música, se não te 
compreendo completamente,
sempre vem de ti uma 
melodia, um ritmo, que 
me tocam profundamente.
E é assim, nessa musicalidade
de alma, que os problemas da
língua se resolvem numa
porção de beijos.

Descarga travada

Quando a descarga trava,
que agonia.
Pois quem está de fora
sempre acha que 
fizemos mais
do que devia.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Belmiro Braga


Neste trânsito moroso de São Paulo, tenho por hábito verificar as placas dos caminhões, mas aquelas de cidades distantes da capital, e que, no meu imaginário, são sempre locais aprazíveis. Eu começo a imaginar, por exemplo, aquele caminhoneiro de Belmiro Braga, em Minas Gerais - cidade com pouco mais de 3 mil habitantes -, que, na minha história, seguirá para casa, levando salames que comprou lá no sul, onde descarregou a carga. Deixará para comprar o pão bem mais perto, e, como na minha imaginação ele chegará no meio de uma tarde de sol, posso imaginá-lo na mesa da cozinha, tomando café acompanhado por seus dois garotos e a mulher, em uma conversa bastante animada e terna.

Na minha história há ainda um cachorro cor de café com leite sentado no pé da mesa, ouvindo a conversa. Todos estão alegres porque o próximo frete será só daqui a quatro dias, e, na minha história, sempre o dia seguinte será sábado, quando os quatro irão à tarde dar um passeio em torno da praça, para que as conversas sejam colocadas em dia com vizinhos e amigos, e para que todos desfrutem da alegria de comer pipocas, feitas com carinho pelo pipoqueiro da praça, enquanto a noite vai caindo aos poucos trazendo muita paz. É assim que minha história termina. Não quero ir além para que ela não se estrague, e torço para que dure até o próximo semáforo. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Roupas surradas


Olhando minhas roupas surradas no guarda-roupa e em minhas gavetas, sinto uma enorme gratidão por elas. Elas que já me acompanham há uns bons anos. Viveram comigo alegrias, tensões, tristeza, caíram e se ralaram e aguentaram caladas quando eu, na minha fraqueza diante da vitrine, pensei em substituí-las. Adoro uma camisa xadrez já bastante velha, meiões esgarçados, uma camisa de futebol que já dura 30 anos (vejam só!), e um pijama de flanela que ganhei de minha mãe quando o frio era mais frio, e ao pensar naquele frio, recordo-me que tudo era mais quente.

Há roupas que já se foram, é bem verdade, mas eu mato a saudades do aconchego delas em fotografias. Tento me lembrar em que acreditava, quais eram minhas inquietações e esperanças na época em que as vestia. Mas dou um alerta: permitir que uma roupa fique surrada não é tão fácil assim. Tem de ser fechado um pacto entre você e ela, com direito a picada de agulha de costura no pulso. Os saldões, liquidações e pressões da moda podem querer quebrar esse casamento.

Bom, mas se a tentação for superada, com o passar do tempo, você verá que com essas roupas surradas tudo fica mais natural em você, o medo da quebra do sentido estético se vai, o sorvete e a sopa são sorvidos com mais gosto e não há bloqueios para se sentar no chão. Ah, e se as pessoas deixarem de olhar pra você por causa da roupa, não se preocupe. O que é novo um dia também será velho, e o tempo em termos de roupa, antes de ser remédio, é sempre remendo pra tudo.


Licença poética


Ele estava escrevendo
tudo meio quadrado.
Buscava inspiração,
mas nessa busca
acabava sufocado.
Só depois, com
muito custo, é
que percebeu
que não era ele
o errado.
Era apenas a sua
licença poética
que havia expirado.

A formiguinha e a criancinha


Era uma vez,
uma formiguinha
muito sensível
que sem querer
mordeu o pé
de uma criancinha.
Choraram as duas
em suas frágeis
descobertas da
vida sobre
a Terra.

Eleições

Toda campanha
é sempre igual:
santinhos, musiquinhas
divulgando matilhas de cães.

E na hora de ferrar o povo,
Ferram-nos no mais manjado... papai-e-mamãe.

Café pequeno


Era uma vez, um cozinha do interior, em que o sol da tarde entrava pela janela. Lá havia uma senhora dócil e de olhos castanhos vivos, que, enquanto cantava, cozinhava no fogão de lenha uma chaleira enorme de chá de manjericão e, logo ao lado, fritava a cebola para fazer o arroz do jantar. Um pouquinho mais ao fundo, um mundo de broinhas de milho chegavam ao ponto e, pertinho delas, o bule de café deixava escapar um cheiro delicioso. Ah, que pena não ter naquela hora um gravador de aromas. Mas que sorte ter vivido tudo isso. Depois desse momento mágico, uma intensidade de amor tão grande ficou em mim que qualquer insulto da vida moderna que tente me entristecer, modéstia à parte, não dá nem pro cheiro.  

A bala

             

Ela havia nascido da pólvora e, embora sonhasse ser fogo de artifício daqueles que iluminam o céu nas noites de São João, não teve escolha. Deixou de lado toda a poesia e logo teve de trabalhar. Virou bala, ou projétil, para sermos mais sofisticados. A bem da verdade, em meio a um tiroteio, rara será a pessoa que se lembrará de chamar de projétil uma bala, mas vamos continuar a história. 

            Num mundo em que as pessoas ainda precisam ser contidas por uma arma, ela rapidamente arrumou emprego. E olha que teve sorte. Durante dez anos trabalhou guardadinha no tambor de um revólver de um vigia noturno. Um senhor aposentado que passava o dia rezando na igreja e à noite montava guarda na lojinha do seu Jacó. A cidade era pequena, do interior, e nessa década de trabalho ninguém havia desafiado a segurança do local.

            A bala passava seu tempo assim. Durante o dia dormia num cantinho do guarda-roupa e à noite ouvia aquelas modas de viola que vinham do radinho de pilha de Valdenor, sempre solitário, já com as portas abaixadas, debruçado sobre o balcão da loja de seu Jacó. A única vez em que ela achou que fosse entrar em cena, novamente deu sorte. Um gato intruso no fundo do estabelecimento e lá se foi para nunca mais sua companheira de tambor chamada Clotilde.

            No saldo, um gato esperto saindo pela janela, um furo na prateleira, remendado na mesma noite por Valdenor com massa plástica “pra ninguém notar”, e, por fim, Clotilde, depois do ricochete, cravada em definitivo num canto da parede.  A bala chorou quietinha a morte da amiga, mas respirou aliviada. Tinha se safado dessa vez. Afinal, poderia ter sido ela. Aliás, a próxima seria ela, na ordem natural do tambor.  

            Alguns meses depois, a bala começou a perceber que o vigia já não estava lá muito certo da cabeça. Sabe como é que é, há anos sem fazer nada, só vendo o tempo passar, e Valdenor acabou entrando numa depressão danada. A bala passou a temer que ele tentasse se matar numa das noites frias e tristes no interior solitário daquela loja do seu Jacó.

            Certa vez, Valdenor, em uma de suas crises noturnas, para a sorte da bala, resolveu retirar todas elas do tambor, por pura curiosidade. Colocou-as todas - ou as que haviam sobrado, depois da partida de Clotilde - em pé sobre o balcão, como se fossem vários soldadinhos de chumbo. Na hora de recarregar o revólver, a tal bala, por ironia do destino, passou a ocupar outro lugar no tambor. Ela não era mais a “da vez”. Agora era Mirtes.

            E não deu outra. Dois meses depois, em outro acesso de loucura, e lá se foi Mirtes para dentro da cabeça de Valdenor, por obra do próprio. Morto o vigia, a viúva anunciou a venda do velho revólver a preço de banana. Um malandro da metrópole que “passava férias” naquele fim de mundo incluiu em suas compras de viagem, entre vidros de compota e toalhinhas bordadas à mão, o velho revólver de Valdenor.  

            O nome desse sujeito era Deninho. Assim que chegou em seu barraco, já na cidade grande, a primeira coisa que fez foi retirar as balas que estavam no tambor - “deviam estar vencidas” - para colocar outras novinhas. A bala ficava agora enfiada na cartucheira de couro, talvez para uma emergência, um último recurso de bandido encurralado, sabe-se lá. O fato é que a tal bala, acostumada com a monotonia lá dos cafundós, vendo carros, muita gente, corre-corre, passou a gostar da coisa. 

            Aos poucos, foi se esquecendo de sua pacata cidade. Agora queria agito, frisson... Quem sabe nessa nova vida não conseguiria até virar chaveiro de estimação para passear por aí entre as chaves de um carro importado, e dormir em bolsos cheios de dólar?! E quanto mais ela vivia nesse mundo do tráfico, do assalto, do sequestro, da vida “louca” em si, mais gosto pela marginalidade ela pegava. Ao mesmo tempo, em sua cômoda posição de “estepe”, não queria trabalhar. Trabalhar para ela, como desde o início, representava o seu fim. Era entrar na lida e deixar de existir, a exemplo de Clotilde e Mirtes.

            Apesar do corre-corre, às vezes ela caía em si e sentia, de repente, um medo forte, queria escapar, escorregar da cartucheira para o chão em uma viela qualquer, mas nada de o bandido deixá-la fugir. E ao longo dos dias, a bala, na posição de “espectadora privilegiada” de vários crimes, foi deixando de lado o remorso, a culpa, o medo e começou a “curtir” os assassinatos, os assaltos, roubos etc. Tempos depois, ela não conseguia mais deixar aquela vida, seja por ter pego gosto pelo negócio ou porque o pessoal da pesada não queria mesmo vê-la fora da parada.

            A alguns metros do esconderijo de Deninho, que era também onde morava a bala, existia uma igreja. O padre de lá, chamado Eurico, era um sujeito linha dura. Perdoava pouco, ajudava a poucos, mas se orgulhava de sua “benevolência” e de seguir rigorosamente os preceitos da Bíblia. Um dia, a bala caiu em si. Foi como se despertasse de um longo pesadelo. Depois de presenciar um assassinato a sangue frio, algo causou agonia em seu íntimo. De repente, veio-lhe à mente seus tempos de infância, breves, mas bons tempos em que seu grande sonho era simplesmente iluminar uma noite estrelada ao lado da fogueira, dos quitutes e da festança animada. Aqueles haviam sido tempos de felicidade e esperança.

            E foi com uma grande dor no coração que a bala entendeu o quanto havia sido conivente com o crime, desde que deixara sua cidade natal. Ela estava ali, profundamente abalada, metida em suas angústias, quando ouviu alguém gritar:

            - Xi, sujô. A polícia!!!

            De repente, tiros para todos os lados. Deninho se viu acuado. As balas vinham das armas dos soldados e ele retrucava. A cada novo tiro, a bala, encolhida na cartucheira, via seu fim mais próximo. Minutos depois, e lá estava ela indo para o tambor. Benzeu-se antes de entrar, pois ainda tinha um pouco de religião dentro de si. Pensou em todos os seus pecados e desejou se confessar com o padre Eurico antes de morrer, se isso ainda fosse possível.

            E nem bem se acomodou no tambor, sentiu um cutucão e um calor forte vindos de baixo. Começava ali sua morte. O tiro de Deninho passou raspando o policial e seguiu zunindo. Sem pestanejar, a bala decidiu seguir para a pequena igreja a fim de fazer sua confissão na hora derradeira. Queria sua extrema-unção. Ela entrou na capela e dirigiu-se ao confessionário. Lá contou todos os seus inúmeros pecados ao padre Eurico que tudo ouvia boquiaberto. Feita a confissão, implorou perdão ao sacerdote, que só conseguiu lhe dizer: 

            - Não te perdoo! Você é uma bala perdida! 

            E não é que era mesmo. Depois disso, ela, que havia vindo lá do “três-oitão” do Deninho, furou a fina madeira do confessionário e matou o insensível padre Eurico, de uma vez por todas.

            Acabava ali a história de um padre que se encontrara com a “perdida” para se “achar” na morte. Terminava também a história de uma bala que, fosse em outras circunstâncias, talvez virasse fogo de artifício para encher de brilho e cor, por uns breves segundos que fossem, o sorriso de uma criança em noite alegre de São João. 

 

FIM