mas com esse nome
não luzia,
era a negação
de si própria.
Tinha a alma
de um farol
marítimo
em singelo
corpo de lanterna.
Por fora se achava
rude,
mas por dentro,
trazia a força da luz
mais terna.
Certa vez, um inglês doido veio ao Brasil e começou a matar todos aqueles que mentissem em seus currículos afirmando ler, escrever e falar bem em inglês. Assim, ele deu início a uma série de assassinatos em série pelo país. Detetives e investigadores de polícia se descabelavam na tentativa de encontrar uma ligação entre os vários executados.
Depois de muitas perícias concluíram que, realmente, o único traço comum entre todos os assassinados era o fato de terem mentido em seus currículos sobre suas habilidades com a língua inglesa. Certa feita, em mais uma noite de execuções em série, o inglês doido ficou escondido em uma esquina, com seu rifle, à espera de mais um mentiroso.
A vítima dessa vez era Leonardo, um sujeito comum, de bons princípios, que aparentemente somente cometera o pecado de mentir no currículo. Era noite, garoava, e Leonardo se preparava para entrar em sua casa. Enquanto o jovem se esforçava para alcançar a chave do portão no bolso de trás da calça, o louco inglês fez a mira, contudo, uma fração de segundo antes de ele atirar, Leonardo caiu morto.
Havia sido alvejado fulminantemente por um tiro dado por outra pessoa. Quem se antecipara na execução de Leonardo foi um sujeito, também maluco, que tinha vindo de Madri com o simples propósito de matar todos aqueles que também mentissem no currículo, dessa vez, afirmando ter espanhol avançado.
Era sexta-feira, final da tarde e o sujeito, cansado de mais uma semana sem a menor emoção, encaminhava-se para casa. Era solitário e vivia se questionando sobre a razão de existir. O trânsito estava infernal naquela avenida, cheia de anda e para, e ele empacou com seu carro defronte a um bar em que pessoas alegres dançavam, riam e cantavam ao som de "Água de chuva no mar", levado por uma animada roda de samba.
Ele começou a perceber que a música falava de alguém que havia encontrado um grande amor e que a decepção tinha ficado para trás. Percebeu que há tempos não se divertia, não cantava e que a palavra paixão não existia para ele. Teve enorme vontade de largar o carro ali, no meio da avenida, e ir ao encontro daquela alegria contagiante. Porém, o trânsito começou a fluir novamente. Ele então sintonizou o rádio em mais um daqueles noticiários enfadonhos e seguiu para casa. Seguiu seu caminho mas não era mais o mesmo. Sabia que aquela tristeza era só sua, e que havia pessoas mais felizes que ele, apesar de tudo.
Viu também que seu problema não era tristeza, era mais que isso, era falta de coragem de lutar por uma possível vida feliz, a despeito do questionamento dos outros, que até então tinham regido sua maneira de existir sem se importar com quem ele era realmente.
Na semana seguinte, passou em frente ao tal bar e entrou de uma vez, sendo aceito de pronto pela turma do samba, engrossando o coro. Só percebeu que havia dado um grande passo quando seu coração disparou em razão de não sei o quê, só sabia que era bom, era gostoso, era simples e pronto.
Ah, você pode me perguntar onde é que ele parou o carro naquela avenida de trânsito tão caótico? E eu lhe digo que naquela mesma semana ele pediu a conta do emprego que detestava, vendeu seu automóvel, comprou um barco modesto e havia ido ao samba, de ônibus mesmo, em busca de seu grande amor, que pelo ritmo das coisas, parecia ter encontrado, bem ali na mesa diante da sua.
FIM
De repente, numas das ruas do centro velho de São Paulo ela vinha toda de branco, toda molhada e despenteada. Só que ele comia um churrasco grego. Ela passou direto e ele nem a percebeu. Degustou seu lanche até o final, e ela seguiu seu caminho. Entrou no ônibus e foi para casa tomar um banho quente. Estava marcado pelo destino que os dois deveriam se encontrar naquele dia, no meio da rua, do mundo, no meio da chuva, e que ficariam apaixonados a girar.
Sim, apaixonados a girar, não fosse o churrasco grego e a compenetração que sua degustação sempre requer. Mais tarde, ela e ele, cada um ajoelhado ao lado de sua respectiva cama, pediam a Deus, antes de dormir, que Ele lhes mandasse uma pessoa especial.
Então, ela ouviu sussurrar dentro de sua alma que deveria insistir em sair de branco debaixo de chuva pela cidade, com seu quase irresistível charme, pois ela era um ser apaixonante e muito especial.
Quanto a ele, ecoou uma voz do além no âmago de seu ser, que o repreendeu dizendo que alguém que come churrasco grego com tamanha devoção, a ponto de não perceber a linda mulher de sua vida passar diante de seus olhos, este nada tem de especial, pois é só mais um a se comportar de maneira óbvia e instintiva.
Naquele dia, o destino não cumpriu o seu papel e deve ter se chateado, ele que sempre usou do desejo ardente para aproximar as pessoas, naquela tarde de chuva se frustrou e descobriu, meio por acaso, que se a carne é fraca, a do churrasco grego é muito macia, deliciosa e, como vimos, esta sim, simplesmente irresistível.
FIM
Neste trânsito moroso de São Paulo, tenho por hábito verificar as placas dos caminhões, mas aquelas de cidades distantes da capital, e que, no meu imaginário, são sempre locais aprazíveis. Eu começo a imaginar, por exemplo, aquele caminhoneiro de Belmiro Braga, em Minas Gerais - cidade com pouco mais de 3 mil habitantes -, que, na minha história, seguirá para casa, levando salames que comprou lá no sul, onde descarregou a carga. Deixará para comprar o pão bem mais perto, e, como na minha imaginação ele chegará no meio de uma tarde de sol, posso imaginá-lo na mesa da cozinha, tomando café acompanhado por seus dois garotos e a mulher, em uma conversa bastante animada e terna.
Na minha história há ainda um cachorro cor de café com leite sentado no pé da mesa, ouvindo a conversa. Todos estão alegres porque o próximo frete será só daqui a quatro dias, e, na minha história, sempre o dia seguinte será sábado, quando os quatro irão à tarde dar um passeio em torno da praça, para que as conversas sejam colocadas em dia com vizinhos e amigos, e para que todos desfrutem da alegria de comer pipocas, feitas com carinho pelo pipoqueiro da praça, enquanto a noite vai caindo aos poucos trazendo muita paz. É assim que minha história termina. Não quero ir além para que ela não se estrague, e torço para que dure até o próximo semáforo.
Ela havia nascido da
pólvora e, embora sonhasse ser fogo de artifício daqueles que iluminam o céu
nas noites de São João, não teve escolha. Deixou de lado toda a poesia e logo
teve de trabalhar. Virou bala, ou projétil, para sermos mais sofisticados. A bem
da verdade, em meio a um tiroteio, rara será a pessoa que se lembrará de chamar
de projétil uma bala, mas vamos continuar a história.
Num
mundo em que as pessoas ainda precisam ser contidas por uma arma, ela
rapidamente arrumou emprego. E olha que teve sorte. Durante dez anos trabalhou
guardadinha no tambor de um revólver de um vigia noturno. Um senhor
aposentado que passava o dia rezando na igreja e à noite montava guarda na
lojinha do seu Jacó. A cidade era pequena, do interior, e nessa década de
trabalho ninguém havia desafiado a segurança do local.
A
bala passava seu tempo assim. Durante o dia dormia num cantinho do guarda-roupa
e à noite ouvia aquelas modas de viola que vinham do radinho de pilha de
Valdenor, sempre solitário, já com as portas abaixadas, debruçado sobre o
balcão da loja de seu Jacó. A única vez em que ela achou que fosse entrar em
cena, novamente deu sorte. Um gato intruso no fundo do estabelecimento e lá se
foi para nunca mais sua companheira de tambor chamada Clotilde.
No
saldo, um gato esperto saindo pela janela, um furo na prateleira, remendado na
mesma noite por Valdenor com massa plástica “pra ninguém notar”, e, por fim,
Clotilde, depois do ricochete, cravada em definitivo num canto da parede.
A bala chorou quietinha a morte da amiga, mas respirou aliviada. Tinha se
safado dessa vez. Afinal, poderia ter sido ela. Aliás, a próxima seria
ela, na ordem natural do tambor.
Alguns meses depois, a bala começou a perceber que o vigia já não
estava lá muito certo da cabeça. Sabe como é que é, há anos sem fazer nada, só
vendo o tempo passar, e Valdenor acabou entrando numa depressão danada. A bala
passou a temer que ele tentasse se matar numa das noites frias e tristes no
interior solitário daquela loja do seu Jacó.
Certa
vez, Valdenor, em uma de suas crises noturnas, para a sorte da bala, resolveu
retirar todas elas do tambor, por pura curiosidade. Colocou-as todas - ou as
que haviam sobrado, depois da partida de Clotilde - em pé sobre o balcão, como
se fossem vários soldadinhos de chumbo. Na hora de recarregar o revólver, a tal
bala, por ironia do destino, passou a ocupar outro lugar no tambor. Ela não era
mais a “da vez”. Agora era Mirtes.
E
não deu outra. Dois meses depois, em outro acesso de loucura, e lá se foi
Mirtes para dentro da cabeça de Valdenor, por obra do próprio. Morto o vigia, a
viúva anunciou a venda do velho revólver a preço de banana. Um malandro da
metrópole que “passava férias” naquele fim de mundo incluiu em suas compras de viagem,
entre vidros de compota e toalhinhas bordadas à mão, o velho revólver de
Valdenor.
O
nome desse sujeito era Deninho. Assim que chegou em seu barraco, já na cidade
grande, a primeira coisa que fez foi retirar as balas que estavam no tambor -
“deviam estar vencidas” - para colocar outras novinhas. A bala ficava agora
enfiada na cartucheira de couro, talvez para uma emergência, um último recurso
de bandido encurralado, sabe-se lá. O fato é que a tal bala, acostumada com a
monotonia lá dos cafundós, vendo carros, muita gente, corre-corre, passou a
gostar da coisa.
Aos
poucos, foi se esquecendo de sua pacata cidade. Agora queria agito, frisson...
Quem sabe nessa nova vida não conseguiria até virar chaveiro de estimação para
passear por aí entre as chaves de um carro importado, e dormir em bolsos cheios
de dólar?! E quanto mais ela vivia nesse mundo do tráfico, do assalto, do
sequestro, da vida “louca” em si, mais gosto pela marginalidade ela pegava. Ao
mesmo tempo, em sua cômoda posição de “estepe”, não queria trabalhar. Trabalhar
para ela, como desde o início, representava o seu fim. Era entrar na lida e
deixar de existir, a exemplo de Clotilde e Mirtes.
Apesar
do corre-corre, às vezes ela caía em si e sentia, de repente, um medo
forte, queria escapar, escorregar da cartucheira para o chão em uma viela
qualquer, mas nada de o bandido deixá-la fugir. E ao longo dos dias, a bala, na
posição de “espectadora privilegiada” de vários crimes, foi deixando de lado o
remorso, a culpa, o medo e começou a “curtir” os assassinatos, os assaltos,
roubos etc. Tempos depois, ela não conseguia mais deixar aquela vida, seja por
ter pego gosto pelo negócio ou porque o pessoal da pesada não queria mesmo
vê-la fora da parada.
A
alguns metros do esconderijo de Deninho, que era também onde morava a bala,
existia uma igreja. O padre de lá, chamado Eurico, era um sujeito linha dura.
Perdoava pouco, ajudava a poucos, mas se orgulhava de sua “benevolência” e de
seguir rigorosamente os preceitos da Bíblia. Um dia, a bala caiu em si. Foi
como se despertasse de um longo pesadelo. Depois de presenciar um assassinato a
sangue frio, algo causou agonia em seu íntimo. De repente, veio-lhe à mente
seus tempos de infância, breves, mas bons tempos em que seu grande sonho era
simplesmente iluminar uma noite estrelada ao lado da fogueira, dos quitutes e
da festança animada. Aqueles haviam sido tempos de felicidade e esperança.
E
foi com uma grande dor no coração que a bala entendeu o quanto havia sido
conivente com o crime, desde que deixara sua cidade natal. Ela estava ali,
profundamente abalada, metida em suas angústias, quando ouviu alguém gritar:
-
Xi, sujô. A polícia!!!
De
repente, tiros para todos os lados. Deninho se viu acuado. As balas vinham das
armas dos soldados e ele retrucava. A cada novo tiro, a bala, encolhida na
cartucheira, via seu fim mais próximo. Minutos depois, e lá estava ela indo
para o tambor. Benzeu-se antes de entrar, pois ainda tinha um pouco de religião
dentro de si. Pensou em todos os seus pecados e desejou se confessar com o
padre Eurico antes de morrer, se isso ainda fosse possível.
E
nem bem se acomodou no tambor, sentiu um cutucão e um calor forte vindos de
baixo. Começava ali sua morte. O tiro de Deninho passou raspando o policial e
seguiu zunindo. Sem pestanejar, a bala decidiu seguir para a pequena igreja a
fim de fazer sua confissão na hora derradeira. Queria sua extrema-unção. Ela
entrou na capela e dirigiu-se ao confessionário. Lá contou todos os seus
inúmeros pecados ao padre Eurico que tudo ouvia boquiaberto. Feita a confissão,
implorou perdão ao sacerdote, que só conseguiu lhe dizer:
-
Não te perdoo! Você é uma bala perdida!
E
não é que era mesmo. Depois disso, ela, que havia vindo lá do “três-oitão” do
Deninho, furou a fina madeira do confessionário e matou o insensível padre
Eurico, de uma vez por todas.
Acabava
ali a história de um padre que se encontrara com a “perdida” para se “achar” na
morte. Terminava também a história de uma bala que, fosse em outras
circunstâncias, talvez virasse fogo de artifício para encher de brilho e cor,
por uns breves segundos que fossem, o sorriso de uma criança em noite alegre de
São João.
FIM