Quando criança, conversamos com amigos imaginários. Depois, na adolescência, falamos sozinhos, treinando como falar com a namorada. Um pouco mais tarde, falamos feito o homem da cobra em busca de sermos aceitos. Falamos muito também ao lado da pessoa amada e para nos mantermos no emprego. Mas o tempo vai nos calando a boca. A rotina resseca os lábios antes molhados pelos beijos, e o falar vira quase obrigação quando se impõe a discussão da relação. E já no final da vida, quando ninguém nos dá mais a mínima e deixamos de lado os pudores, voltamos a conversar com nossos amigos imaginários da infância. E se naquela época eles brincavam conosco, agora vêm nos fazer companhia até o dia em que sigamos com eles, falando pelos cotovelos sobre mais uma jornada superada, enquanto pouco se falará por ocasião de nosso velório.
Nenhum comentário:
Postar um comentário