terça-feira, 2 de outubro de 2012

A bala

             

Ela havia nascido da pólvora e, embora sonhasse ser fogo de artifício daqueles que iluminam o céu nas noites de São João, não teve escolha. Deixou de lado toda a poesia e logo teve de trabalhar. Virou bala, ou projétil, para sermos mais sofisticados. A bem da verdade, em meio a um tiroteio, rara será a pessoa que se lembrará de chamar de projétil uma bala, mas vamos continuar a história. 

            Num mundo em que as pessoas ainda precisam ser contidas por uma arma, ela rapidamente arrumou emprego. E olha que teve sorte. Durante dez anos trabalhou guardadinha no tambor de um revólver de um vigia noturno. Um senhor aposentado que passava o dia rezando na igreja e à noite montava guarda na lojinha do seu Jacó. A cidade era pequena, do interior, e nessa década de trabalho ninguém havia desafiado a segurança do local.

            A bala passava seu tempo assim. Durante o dia dormia num cantinho do guarda-roupa e à noite ouvia aquelas modas de viola que vinham do radinho de pilha de Valdenor, sempre solitário, já com as portas abaixadas, debruçado sobre o balcão da loja de seu Jacó. A única vez em que ela achou que fosse entrar em cena, novamente deu sorte. Um gato intruso no fundo do estabelecimento e lá se foi para nunca mais sua companheira de tambor chamada Clotilde.

            No saldo, um gato esperto saindo pela janela, um furo na prateleira, remendado na mesma noite por Valdenor com massa plástica “pra ninguém notar”, e, por fim, Clotilde, depois do ricochete, cravada em definitivo num canto da parede.  A bala chorou quietinha a morte da amiga, mas respirou aliviada. Tinha se safado dessa vez. Afinal, poderia ter sido ela. Aliás, a próxima seria ela, na ordem natural do tambor.  

            Alguns meses depois, a bala começou a perceber que o vigia já não estava lá muito certo da cabeça. Sabe como é que é, há anos sem fazer nada, só vendo o tempo passar, e Valdenor acabou entrando numa depressão danada. A bala passou a temer que ele tentasse se matar numa das noites frias e tristes no interior solitário daquela loja do seu Jacó.

            Certa vez, Valdenor, em uma de suas crises noturnas, para a sorte da bala, resolveu retirar todas elas do tambor, por pura curiosidade. Colocou-as todas - ou as que haviam sobrado, depois da partida de Clotilde - em pé sobre o balcão, como se fossem vários soldadinhos de chumbo. Na hora de recarregar o revólver, a tal bala, por ironia do destino, passou a ocupar outro lugar no tambor. Ela não era mais a “da vez”. Agora era Mirtes.

            E não deu outra. Dois meses depois, em outro acesso de loucura, e lá se foi Mirtes para dentro da cabeça de Valdenor, por obra do próprio. Morto o vigia, a viúva anunciou a venda do velho revólver a preço de banana. Um malandro da metrópole que “passava férias” naquele fim de mundo incluiu em suas compras de viagem, entre vidros de compota e toalhinhas bordadas à mão, o velho revólver de Valdenor.  

            O nome desse sujeito era Deninho. Assim que chegou em seu barraco, já na cidade grande, a primeira coisa que fez foi retirar as balas que estavam no tambor - “deviam estar vencidas” - para colocar outras novinhas. A bala ficava agora enfiada na cartucheira de couro, talvez para uma emergência, um último recurso de bandido encurralado, sabe-se lá. O fato é que a tal bala, acostumada com a monotonia lá dos cafundós, vendo carros, muita gente, corre-corre, passou a gostar da coisa. 

            Aos poucos, foi se esquecendo de sua pacata cidade. Agora queria agito, frisson... Quem sabe nessa nova vida não conseguiria até virar chaveiro de estimação para passear por aí entre as chaves de um carro importado, e dormir em bolsos cheios de dólar?! E quanto mais ela vivia nesse mundo do tráfico, do assalto, do sequestro, da vida “louca” em si, mais gosto pela marginalidade ela pegava. Ao mesmo tempo, em sua cômoda posição de “estepe”, não queria trabalhar. Trabalhar para ela, como desde o início, representava o seu fim. Era entrar na lida e deixar de existir, a exemplo de Clotilde e Mirtes.

            Apesar do corre-corre, às vezes ela caía em si e sentia, de repente, um medo forte, queria escapar, escorregar da cartucheira para o chão em uma viela qualquer, mas nada de o bandido deixá-la fugir. E ao longo dos dias, a bala, na posição de “espectadora privilegiada” de vários crimes, foi deixando de lado o remorso, a culpa, o medo e começou a “curtir” os assassinatos, os assaltos, roubos etc. Tempos depois, ela não conseguia mais deixar aquela vida, seja por ter pego gosto pelo negócio ou porque o pessoal da pesada não queria mesmo vê-la fora da parada.

            A alguns metros do esconderijo de Deninho, que era também onde morava a bala, existia uma igreja. O padre de lá, chamado Eurico, era um sujeito linha dura. Perdoava pouco, ajudava a poucos, mas se orgulhava de sua “benevolência” e de seguir rigorosamente os preceitos da Bíblia. Um dia, a bala caiu em si. Foi como se despertasse de um longo pesadelo. Depois de presenciar um assassinato a sangue frio, algo causou agonia em seu íntimo. De repente, veio-lhe à mente seus tempos de infância, breves, mas bons tempos em que seu grande sonho era simplesmente iluminar uma noite estrelada ao lado da fogueira, dos quitutes e da festança animada. Aqueles haviam sido tempos de felicidade e esperança.

            E foi com uma grande dor no coração que a bala entendeu o quanto havia sido conivente com o crime, desde que deixara sua cidade natal. Ela estava ali, profundamente abalada, metida em suas angústias, quando ouviu alguém gritar:

            - Xi, sujô. A polícia!!!

            De repente, tiros para todos os lados. Deninho se viu acuado. As balas vinham das armas dos soldados e ele retrucava. A cada novo tiro, a bala, encolhida na cartucheira, via seu fim mais próximo. Minutos depois, e lá estava ela indo para o tambor. Benzeu-se antes de entrar, pois ainda tinha um pouco de religião dentro de si. Pensou em todos os seus pecados e desejou se confessar com o padre Eurico antes de morrer, se isso ainda fosse possível.

            E nem bem se acomodou no tambor, sentiu um cutucão e um calor forte vindos de baixo. Começava ali sua morte. O tiro de Deninho passou raspando o policial e seguiu zunindo. Sem pestanejar, a bala decidiu seguir para a pequena igreja a fim de fazer sua confissão na hora derradeira. Queria sua extrema-unção. Ela entrou na capela e dirigiu-se ao confessionário. Lá contou todos os seus inúmeros pecados ao padre Eurico que tudo ouvia boquiaberto. Feita a confissão, implorou perdão ao sacerdote, que só conseguiu lhe dizer: 

            - Não te perdoo! Você é uma bala perdida! 

            E não é que era mesmo. Depois disso, ela, que havia vindo lá do “três-oitão” do Deninho, furou a fina madeira do confessionário e matou o insensível padre Eurico, de uma vez por todas.

            Acabava ali a história de um padre que se encontrara com a “perdida” para se “achar” na morte. Terminava também a história de uma bala que, fosse em outras circunstâncias, talvez virasse fogo de artifício para encher de brilho e cor, por uns breves segundos que fossem, o sorriso de uma criança em noite alegre de São João. 

 

FIM

 

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