Ela havia nascido da
pólvora e, embora sonhasse ser fogo de artifício daqueles que iluminam o céu
nas noites de São João, não teve escolha. Deixou de lado toda a poesia e logo
teve de trabalhar. Virou bala, ou projétil, para sermos mais sofisticados. A bem
da verdade, em meio a um tiroteio, rara será a pessoa que se lembrará de chamar
de projétil uma bala, mas vamos continuar a história.
Num
mundo em que as pessoas ainda precisam ser contidas por uma arma, ela
rapidamente arrumou emprego. E olha que teve sorte. Durante dez anos trabalhou
guardadinha no tambor de um revólver de um vigia noturno. Um senhor
aposentado que passava o dia rezando na igreja e à noite montava guarda na
lojinha do seu Jacó. A cidade era pequena, do interior, e nessa década de
trabalho ninguém havia desafiado a segurança do local.
A
bala passava seu tempo assim. Durante o dia dormia num cantinho do guarda-roupa
e à noite ouvia aquelas modas de viola que vinham do radinho de pilha de
Valdenor, sempre solitário, já com as portas abaixadas, debruçado sobre o
balcão da loja de seu Jacó. A única vez em que ela achou que fosse entrar em
cena, novamente deu sorte. Um gato intruso no fundo do estabelecimento e lá se
foi para nunca mais sua companheira de tambor chamada Clotilde.
No
saldo, um gato esperto saindo pela janela, um furo na prateleira, remendado na
mesma noite por Valdenor com massa plástica “pra ninguém notar”, e, por fim,
Clotilde, depois do ricochete, cravada em definitivo num canto da parede.
A bala chorou quietinha a morte da amiga, mas respirou aliviada. Tinha se
safado dessa vez. Afinal, poderia ter sido ela. Aliás, a próxima seria
ela, na ordem natural do tambor.
Alguns meses depois, a bala começou a perceber que o vigia já não
estava lá muito certo da cabeça. Sabe como é que é, há anos sem fazer nada, só
vendo o tempo passar, e Valdenor acabou entrando numa depressão danada. A bala
passou a temer que ele tentasse se matar numa das noites frias e tristes no
interior solitário daquela loja do seu Jacó.
Certa
vez, Valdenor, em uma de suas crises noturnas, para a sorte da bala, resolveu
retirar todas elas do tambor, por pura curiosidade. Colocou-as todas - ou as
que haviam sobrado, depois da partida de Clotilde - em pé sobre o balcão, como
se fossem vários soldadinhos de chumbo. Na hora de recarregar o revólver, a tal
bala, por ironia do destino, passou a ocupar outro lugar no tambor. Ela não era
mais a “da vez”. Agora era Mirtes.
E
não deu outra. Dois meses depois, em outro acesso de loucura, e lá se foi
Mirtes para dentro da cabeça de Valdenor, por obra do próprio. Morto o vigia, a
viúva anunciou a venda do velho revólver a preço de banana. Um malandro da
metrópole que “passava férias” naquele fim de mundo incluiu em suas compras de viagem,
entre vidros de compota e toalhinhas bordadas à mão, o velho revólver de
Valdenor.
O
nome desse sujeito era Deninho. Assim que chegou em seu barraco, já na cidade
grande, a primeira coisa que fez foi retirar as balas que estavam no tambor -
“deviam estar vencidas” - para colocar outras novinhas. A bala ficava agora
enfiada na cartucheira de couro, talvez para uma emergência, um último recurso
de bandido encurralado, sabe-se lá. O fato é que a tal bala, acostumada com a
monotonia lá dos cafundós, vendo carros, muita gente, corre-corre, passou a
gostar da coisa.
Aos
poucos, foi se esquecendo de sua pacata cidade. Agora queria agito, frisson...
Quem sabe nessa nova vida não conseguiria até virar chaveiro de estimação para
passear por aí entre as chaves de um carro importado, e dormir em bolsos cheios
de dólar?! E quanto mais ela vivia nesse mundo do tráfico, do assalto, do
sequestro, da vida “louca” em si, mais gosto pela marginalidade ela pegava. Ao
mesmo tempo, em sua cômoda posição de “estepe”, não queria trabalhar. Trabalhar
para ela, como desde o início, representava o seu fim. Era entrar na lida e
deixar de existir, a exemplo de Clotilde e Mirtes.
Apesar
do corre-corre, às vezes ela caía em si e sentia, de repente, um medo
forte, queria escapar, escorregar da cartucheira para o chão em uma viela
qualquer, mas nada de o bandido deixá-la fugir. E ao longo dos dias, a bala, na
posição de “espectadora privilegiada” de vários crimes, foi deixando de lado o
remorso, a culpa, o medo e começou a “curtir” os assassinatos, os assaltos,
roubos etc. Tempos depois, ela não conseguia mais deixar aquela vida, seja por
ter pego gosto pelo negócio ou porque o pessoal da pesada não queria mesmo
vê-la fora da parada.
A
alguns metros do esconderijo de Deninho, que era também onde morava a bala,
existia uma igreja. O padre de lá, chamado Eurico, era um sujeito linha dura.
Perdoava pouco, ajudava a poucos, mas se orgulhava de sua “benevolência” e de
seguir rigorosamente os preceitos da Bíblia. Um dia, a bala caiu em si. Foi
como se despertasse de um longo pesadelo. Depois de presenciar um assassinato a
sangue frio, algo causou agonia em seu íntimo. De repente, veio-lhe à mente
seus tempos de infância, breves, mas bons tempos em que seu grande sonho era
simplesmente iluminar uma noite estrelada ao lado da fogueira, dos quitutes e
da festança animada. Aqueles haviam sido tempos de felicidade e esperança.
E
foi com uma grande dor no coração que a bala entendeu o quanto havia sido
conivente com o crime, desde que deixara sua cidade natal. Ela estava ali,
profundamente abalada, metida em suas angústias, quando ouviu alguém gritar:
-
Xi, sujô. A polícia!!!
De
repente, tiros para todos os lados. Deninho se viu acuado. As balas vinham das
armas dos soldados e ele retrucava. A cada novo tiro, a bala, encolhida na
cartucheira, via seu fim mais próximo. Minutos depois, e lá estava ela indo
para o tambor. Benzeu-se antes de entrar, pois ainda tinha um pouco de religião
dentro de si. Pensou em todos os seus pecados e desejou se confessar com o
padre Eurico antes de morrer, se isso ainda fosse possível.
E
nem bem se acomodou no tambor, sentiu um cutucão e um calor forte vindos de
baixo. Começava ali sua morte. O tiro de Deninho passou raspando o policial e
seguiu zunindo. Sem pestanejar, a bala decidiu seguir para a pequena igreja a
fim de fazer sua confissão na hora derradeira. Queria sua extrema-unção. Ela
entrou na capela e dirigiu-se ao confessionário. Lá contou todos os seus
inúmeros pecados ao padre Eurico que tudo ouvia boquiaberto. Feita a confissão,
implorou perdão ao sacerdote, que só conseguiu lhe dizer:
-
Não te perdoo! Você é uma bala perdida!
E
não é que era mesmo. Depois disso, ela, que havia vindo lá do “três-oitão” do
Deninho, furou a fina madeira do confessionário e matou o insensível padre
Eurico, de uma vez por todas.
Acabava
ali a história de um padre que se encontrara com a “perdida” para se “achar” na
morte. Terminava também a história de uma bala que, fosse em outras
circunstâncias, talvez virasse fogo de artifício para encher de brilho e cor,
por uns breves segundos que fossem, o sorriso de uma criança em noite alegre de
São João.
FIM
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