Era sexta-feira, final da tarde e o sujeito, cansado de mais uma semana sem a menor emoção, encaminhava-se para casa. Era solitário e vivia se questionando sobre a razão de existir. O trânsito estava infernal naquela avenida, cheia de anda e para, e ele empacou com seu carro defronte a um bar em que pessoas alegres dançavam, riam e cantavam ao som de "Água de chuva no mar", levado por uma animada roda de samba.
Ele começou a perceber que a música falava de alguém que havia encontrado um grande amor e que a decepção tinha ficado para trás. Percebeu que há tempos não se divertia, não cantava e que a palavra paixão não existia para ele. Teve enorme vontade de largar o carro ali, no meio da avenida, e ir ao encontro daquela alegria contagiante. Porém, o trânsito começou a fluir novamente. Ele então sintonizou o rádio em mais um daqueles noticiários enfadonhos e seguiu para casa. Seguiu seu caminho mas não era mais o mesmo. Sabia que aquela tristeza era só sua, e que havia pessoas mais felizes que ele, apesar de tudo.
Viu também que seu problema não era tristeza, era mais que isso, era falta de coragem de lutar por uma possível vida feliz, a despeito do questionamento dos outros, que até então tinham regido sua maneira de existir sem se importar com quem ele era realmente.
Na semana seguinte, passou em frente ao tal bar e entrou de uma vez, sendo aceito de pronto pela turma do samba, engrossando o coro. Só percebeu que havia dado um grande passo quando seu coração disparou em razão de não sei o quê, só sabia que era bom, era gostoso, era simples e pronto.
Ah, você pode me perguntar onde é que ele parou o carro naquela avenida de trânsito tão caótico? E eu lhe digo que naquela mesma semana ele pediu a conta do emprego que detestava, vendeu seu automóvel, comprou um barco modesto e havia ido ao samba, de ônibus mesmo, em busca de seu grande amor, que pelo ritmo das coisas, parecia ter encontrado, bem ali na mesa diante da sua.
FIM
Nenhum comentário:
Postar um comentário