terça-feira, 2 de outubro de 2012

Roupas surradas


Olhando minhas roupas surradas no guarda-roupa e em minhas gavetas, sinto uma enorme gratidão por elas. Elas que já me acompanham há uns bons anos. Viveram comigo alegrias, tensões, tristeza, caíram e se ralaram e aguentaram caladas quando eu, na minha fraqueza diante da vitrine, pensei em substituí-las. Adoro uma camisa xadrez já bastante velha, meiões esgarçados, uma camisa de futebol que já dura 30 anos (vejam só!), e um pijama de flanela que ganhei de minha mãe quando o frio era mais frio, e ao pensar naquele frio, recordo-me que tudo era mais quente.

Há roupas que já se foram, é bem verdade, mas eu mato a saudades do aconchego delas em fotografias. Tento me lembrar em que acreditava, quais eram minhas inquietações e esperanças na época em que as vestia. Mas dou um alerta: permitir que uma roupa fique surrada não é tão fácil assim. Tem de ser fechado um pacto entre você e ela, com direito a picada de agulha de costura no pulso. Os saldões, liquidações e pressões da moda podem querer quebrar esse casamento.

Bom, mas se a tentação for superada, com o passar do tempo, você verá que com essas roupas surradas tudo fica mais natural em você, o medo da quebra do sentido estético se vai, o sorvete e a sopa são sorvidos com mais gosto e não há bloqueios para se sentar no chão. Ah, e se as pessoas deixarem de olhar pra você por causa da roupa, não se preocupe. O que é novo um dia também será velho, e o tempo em termos de roupa, antes de ser remédio, é sempre remendo pra tudo.


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