Olhando
minhas roupas surradas no guarda-roupa e em minhas gavetas, sinto uma
enorme gratidão por elas. Elas que já me acompanham há uns bons
anos. Viveram comigo alegrias, tensões, tristeza, caíram e se
ralaram e aguentaram caladas quando eu, na minha fraqueza diante da
vitrine, pensei em substituí-las. Adoro uma camisa xadrez já
bastante velha, meiões esgarçados, uma camisa de futebol que já dura
30 anos (vejam só!), e um pijama de flanela que ganhei de minha mãe
quando o frio era mais frio, e ao pensar naquele frio, recordo-me que
tudo era mais quente.
Há
roupas que já se foram, é bem verdade, mas eu mato a saudades do
aconchego delas em fotografias. Tento me lembrar em que acreditava,
quais eram minhas inquietações e esperanças na época em que as
vestia. Mas dou um alerta: permitir que uma roupa fique surrada não
é tão fácil assim. Tem de ser fechado um pacto entre você e ela, com direito a picada de agulha de costura no pulso. Os
saldões, liquidações e pressões da moda podem querer quebrar esse casamento.
Bom,
mas se a tentação for superada, com o passar do tempo, você verá
que com essas roupas surradas tudo fica mais natural em você, o medo
da quebra do sentido estético se vai, o sorvete e a sopa são
sorvidos com mais gosto e não há bloqueios para se sentar no chão.
Ah, e se as pessoas deixarem de olhar pra você por causa da roupa,
não se preocupe. O que é novo um dia também será velho, e o tempo
em termos de roupa, antes de ser remédio, é sempre remendo pra
tudo.
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