sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Reflexões sobre o cotidiano

Ela trazia no rosto um ar de
satisfação associado a leve
toque de vergonha como se
tivesse acabado de dar
um sonoro arroto em público.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Livros

Deus me livre dos que não leem livros. Não daqueles que não tiveram a oportunidade de aprender a ler e escrever, pelas circunstâncias da vida. Mas daqueles que podendo ler, dobraram-se, sem a mínima culpa, diante da TV, do videogame, das redes sociais e da fofoca. Deus me livre dos que não leem livros. Não pela simples aversão, mas pela falta de conversação, imaginação, educação e tanto tempo em vão.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Fragmento de liberdade

Em cima da carroceria de um caminhão, em movimento, sentindo o vento da cara, ah, que vontade doida de sair mexendo com todo mundo.

Coadjuvantes da palavra


A poesia me leva
a um lugar tão
distante
onde não
há ator
nem atriz
principal,
papéis
sabiamente entregues
ao pensamento
e à palavra.
Lá nesses
rincões
somos todos coadjuvantes.
E, uma vez estando lá,
é difícil retornarmos
para onde estávamos.
Às vezes,
somos cortados no ato,
em plena cena,
e voltamos
correndo para
o cotidiano.
Voltamos,
mas não sem antes
marcamos nossas
próximas falas,
nem que seja
em guardanapo,
sob o espelho
embaçado,
na palma da
mão ou decorando,
com olhar fixo,
juntando palavras 
sentado num 
banco lá da estação.

O caminhão de bebidas

Quando o caminhão do seu Valter parava em frente de casa às sextas-feiras à tarde e começava a vender refrigerantes, eu tinha a plena certeza de que viver valia a pena e de que nenhum mal do mundo me atingiria. Não pensava no que fora, não planejava nenhum futuro. Sentado sobre o muro - sim, naquela época as casas tinham muros em que se podia sentar, e ninguém pensava nas pontiagudas grades eletrificadas-, eu sentia apenas o calor delicioso da Primavera. Minha barriga começava a roncar, tinha o corpo tomado por um cansaço de quem brincava havia horas, e sabia que no jantar, ao comer a comida deliciosa de minha mãe eu teria Tubaína para completar. Tudo era tão mágico, e, embora os anos tenham se passado, eu tenho a certeza de que esses momentos estão vivos em algum canto. E eu sinto isso com mais clareza quando largo por alguns instantes as convenções do mundo, e, sem expectativas ou medo, aceito quem sou para me sentar nesse muro da  memória, sem receio de sujar as roupas que nos obrigam a vestir, e com as quais controlam nossa espontaneidade, sob o pretexto de que elas não podem ficar sujas ou amarrotadas. Em outras palavras, eles temem que elas, e nós, fiquemos impregnados de vida.     

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Trabalho de formiguinha

Às vezes, fazer o trabalho de formiguinha
é também morder bem doído o pé 
daqueles que tentam desmanchar 
o nosso formigueiro.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Pólen e espinho

A borboleta pousou 
sobre a linda flor
que lhe recebeu
com pólen perfumado.

Imediatamente, ela
voou dali, e foi pousar
sobre um espinho 
pontiagudo de um cacto.

Ela preferiu o espinho 
ao perfume. E não raro
preferimos quem nos
derruba a quem nos
aprume. 

A perua

O sujeito já estava a ponto de perder a carteira de motorista. Havia levado várias multas, todas elas por excesso de velocidade. Não sabia o motivo, já que sempre fora muito cauteloso. Até que de tanto pensar sobre o assunto encontrou a resposta. É que seu carro, uma perua, adorava os flashes dos radares, e para tê-los sobre si, dava uma esticadinha, sem que seu motorista percebesse. 

O proprietário, depois que descobriu essa necessidade dela, decidiu, ele mesmo, fotografá-la. Deu uma polida em sua lataria, mandou lavar, calibrou os pneus e meteu-lhe um mundo de flashes. As fotografias foram parar na internet e ela, depois de tanta exposição, deixou de curtir as imagens. Essas agora lhe causavam um certo desconforto. 

Ela percebeu que o desejo de ser a mais linda das ruas a transformara realmente numa perua, sem que ela deixasse de ser o que sempre fora, vã, mesmo lotada de gente.   

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Leitura privada

Há quem carregue um jornal, 
uma revista, um livro, com a
altivez de quem coloca a
cultura e a informação 
com propósito primeiro.
Mas há outros, que ao agirem
assim, dão-nos a simples
impressão de que acabaram  
de sair do banheiro. 

No fio da navalha

Ele vivia andando no fio da navalha.
Certo dia, escorregou.
Caiu de pernas abertas.
Virou duas metades, 
em completa
simetria.
Só que agora, 
parte dele dizia a verdade, 
e a outra, só mentia.

Um brinco sem vocação

Aquele brinco
quando na orelha
parava de brilhar.
Nem mexer se 
mexia.
E sem compromisso
com a alegria,
deixou de a linda 
cabeça da moça 
enfeitar.
Não é que ele
era omisso,
simplesmente, 
não brincava
em serviço,
e achava que
trabalhar
não combinava
com isso.  

Soberba

Nostradamus,
na empáfia de hoje em dia,
só usaria camiseta
"Ah, eu já sabia !"

O tempo passa ?


Passa, lava, costura
e nos coze,
dia após dia,
até ficarmos no ponto:
ponto de bala
ou de interrogação.
Dúvidas no fim do caminho
ou pura satisfação.

O tempo em nós

Já não sou mais nenhum menino, hoje sou vários.