quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O caminhão de bebidas

Quando o caminhão do seu Valter parava em frente de casa às sextas-feiras à tarde e começava a vender refrigerantes, eu tinha a plena certeza de que viver valia a pena e de que nenhum mal do mundo me atingiria. Não pensava no que fora, não planejava nenhum futuro. Sentado sobre o muro - sim, naquela época as casas tinham muros em que se podia sentar, e ninguém pensava nas pontiagudas grades eletrificadas-, eu sentia apenas o calor delicioso da Primavera. Minha barriga começava a roncar, tinha o corpo tomado por um cansaço de quem brincava havia horas, e sabia que no jantar, ao comer a comida deliciosa de minha mãe eu teria Tubaína para completar. Tudo era tão mágico, e, embora os anos tenham se passado, eu tenho a certeza de que esses momentos estão vivos em algum canto. E eu sinto isso com mais clareza quando largo por alguns instantes as convenções do mundo, e, sem expectativas ou medo, aceito quem sou para me sentar nesse muro da  memória, sem receio de sujar as roupas que nos obrigam a vestir, e com as quais controlam nossa espontaneidade, sob o pretexto de que elas não podem ficar sujas ou amarrotadas. Em outras palavras, eles temem que elas, e nós, fiquemos impregnados de vida.     

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