quinta-feira, 29 de maio de 2014

Quase palavras, quase silêncio

Meu amor é simples. Não tem champanhe, não tem vinho ou frutos do mar. Não tem passeios a Paris ou Nova York. Tem uma conversa quase silenciosa, à noite, em uma casa simples que insiste em ter jardim, e nossos olhares de cumplicidade são trocados na mesa da cozinha, enquanto tomamos café com leite quente, bolachas de nata e biscoitos de polvilho.

E nessa sintonia, as palavras nem sempre são fundamentais. De vez em quando, paramos de conversar para ouvirmos a chuva que cai sobre as folhas do pé de jasmim e assim, não precisamos de mais nada.

Fica no ar uma coisa enorme, quente, que penetra em nossas almas e que, ao mesmo tempo, tem a leveza e a fragilidade de uma bolha de sabão. Não sabemos se isso é o tal do amor, nem procuramos entendê-lo.

Percebemos apenas que estamos ali, e que, se alguém lá de cima, de algum ponto da galáxia, enxergar aqui na Terra um céu todo escuro nestes tempos tão conturbados, pelo menos nos esforçamos para que sobre nossa casa exista um pouco de luz. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A rifa do poeta

Nunca compre uma rifa de um poeta, pois o prêmio é sempre intangível. 

Letra R, nem pense em fazer greve.

Em meio a tantos temores às vésperas da Copa do Mundo, temo ainda uma greve da letra "R", e a tristeza de um povo sem poder gritar Gol do BRRRRRRRRASIL !

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Vai ou não vai ?

De um lado, um grupo gritava "Não vai ter Copa".
Do outro, vibrava um pessoal de verde e amarelo.
E, com o trânsito bloqueado na avenida Paulista,
começaram os dois grupos a bater bola,
bem no meio da pista, 
diferenças de lado,
no maior 'love'.
A bola surgiu não sabe de onde,
e formando as traves
quatro singelos coquetéis molotov. 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Árvore

Vontade de subir em árvore
pra apanhar uma fruta,
pra driblar cachorro 
e enfim, lá de cima,
ganhar o sabor mais 
doce na boca e, de quebra,
a imagem da vizinha 
que, caprichosamente, 
se despe na janela.
Agora, o que me resta
é comer a fruta e
quanto à menina...
lambê-la com a testa.

Tchau !

De repente, aquela nuca
que ele tanto mordia se foi.
A garota que lhe dava
de costas, a ele deu de costas.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Céu previsível

A chuva de meteoro 
anuncia-se com antecedência,
e ninguém mais cai na da
estrela cadente,
cuja queda não é 
mais surpresa 
pra ninguém.
Com tantos satélites
no espaço a investigar
a vida de astros e
estrelas, como se 
fossem paparazzi,
olhando o céu,
o casal de namorados
não mais se comove.
E logo venderão
discos voadores
em loja 
de um e noventaenOVNI.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Pichar

Pichou uma mensagem
tão hermética que ele 
próprio não entendeu. 
Ficou ali horas e horas
boquiaberto. 
Depois disso, 
resolveu voltar
pra escola, e deixou
de pichar. Achou 
formas mais interessantes
para se expressar.

Reflexão subindo a escada

Pise naqueles cantinhos
das escadas, onde ninguém pisa.
Todo mundo pisa sempre 
no meio do degrau,
e a ele fica aquela
sensação de que poderia
ter sido melhor aproveitado.
Pise em todo o degrau,
varie onde vai pisar, pois
os degraus, ao contrário 
da gente, adoram ser
pisados.


Surpresas

Amor de verdade tem que 
ter surpresas,
senão vira coisa morta.
Tem de ter bombons,
flores e até
'buuu' atrás da porta.

sábado, 3 de maio de 2014

Goela abaixo

O amor tem que ser sorvido gostoso.
Como um sorvete revestido de
calda de chocolate ou caramelo.
Como um pão de queijo quente
tomado com uma xícara de
cappuccino em dia de inverno 
e do sol mais belo. 
Como chá de hortelã ou
suco de frutas vermelhas.
Agora, amor que desce
goela abaixo feito 
jatobá desidratado
ou farofa no deserto,
não é amor
nem vai prender seu coração.
Pelo contrário, 
prenderá seu intestino,
esteja certo !  

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Amor em contratempo

Ela tinha o tempo como seu amigo.
Mas isso não bastava.
Queria namorá-lo, surpreendê-lo, 
amá-lo profundamente, 
para que ele, então saciado,
caísse no sono após a entrega
das horas. Assim, ela poderia
viver um pouco mais,
distante algum tempo
da 'vigília vigilante'
desse grande sedutor,
que a fascinava e a
possuía, dia após dia.
Contudo, o senhor tempo
nada de se apaixonar,
e ela, por fim,
depois de tanto
esperar, morreu.
Mas não morreu devido
à passagem do tempo.
Morreu, sim, foi de amor.

Na hora "h"

Ele a levou ao orgasmo, 
só que de táxi. 
E na hora "h", 
parecia haver
mais alguém ali,
um motorista,
um condutor.
Era como se um
sujeito se
virasse para 
trás e perguntasse,
só pra ela:
"Vou pelo centro ou
prefere que eu pegue 
a orla, meu amor ?"