quinta-feira, 23 de abril de 2015

Pequenas crônicas de uma eterna São Silvestre 5

Foi durante o almoço de Ano Novo que Denis, bastante acima do peso, prometeu aos familiares que correria a São Silvestre quando chegasse 31 de dezembro. Todos riram de sua promessa e não o levaram a sério. Ele teria de perder uns 30, 40 quilos, e como o pessoal já o conhecia, determinação nunca tinha sido o seu forte. Ficou magoado com a turma de casa e com alguns amigos, mas sobretudo com um cunhado inconveniente, que só aparecia nas festas de fim de ano para chateá-lo.

Como muita gente por aí, Denis não conseguiu fechar a boca, pouco se mexeu, e quando chegou outubro deu início aos treinamentos, por obrigação, mesmo. Eram pequenos trotes no parque perto de sua casa: corria, andava; andava, corria; andava, andava e praguejava porque estava acima do peso. Não tinha a mínima motivação, a não ser a de esfregar a medalha na cara dos familiares no próximo almoço de Ano Novo e, sobretudo, na fuça do cunhado chato.

Mas Denis se inquietava: será que conseguiria completar a prova? Será que venceria a subida da Brigadeiro? Será que sofreria um infarto bem em frente ao Teatro Muncipal? O dia da corrida estava se aproximando, treinava desanimado e nem as luzes de Natal espalhadas pela cidade o estimulavam, uma vez que havia desembestado a comer panetones e bombons, e tinha ganhado até alguns quilinhos por conta das festas de confraternização da firma.

Enfim, chegou o grande dia. A família, em comitiva, foi assistir à prova na avenida Paulista. Diziam que tinham vindo dar uma força ao Denis, mas ele sabia em seu íntimo que seus familiares queriam mesmo era ver o seu fracasso. Cá entre nós, a família não gostava muito dele.

Largou no meio da multidão e seu coração estava agitado. Gastou parte da energia correndo bem devagar, mas correndo, logo após a largada, na avenida Paulista. Toda a família o aplaudiu enquanto ele passava, mas ele sabia que era por puro despeito. Já no final da Dr. Arnaldo estava ofegante. Tudo doía. O ar às vezes teimava em não vir. E com a alma em frangalhos começou a andar. Caminhava e chorava, de raiva, de decepção, e até de medo de enfrentar a chacota dos familiares no almoço de Ano Novo. Certamente iriam rir da sua cara, mais uma vez.

Porém, a cada lágrima Denis percebia sua alma mais leve. Sempre caminhando, ele começou a prestar atenção à sua volta. Afinal, não era só ele que caminhava. Havia outros, nas mesmas condições, até mais pesados e ofegantes do que ele. Assim, aos poucos, Denis se conscientizou de que estava feliz em participar da prova, mesmo se deslocando com dificuldade, mesmo com todas as suas falhas e vícios. Ele era, sim, corajoso, porque correr a São Silvestre é um feito digno de mérito, e arrastar, com esforço, um corpo pesado ao longo de 15 quilômetros, tendo a plateia por testemunha, é uma atitude que também merece respeito.

Denis subiu a Brigadeiro bem devagar. Havia feito até alguns amigos ao longo do trajeto, amigos que como ele tinham tido a coragem de enfrentar a prova, mesmo acima do peso e com pouco preparo. Um dava força ao outro, e quando Denis entrou na avenida Paulista, já no final do trajeto, seus familiares torceram o nariz e lhe lançaram olhares de reprovação pela demora. Mas, curiosamente, naquele instante, ele nem se importou com as críticas. Havia começado a prova de um jeito, mas agora já era um outro homem. Mais confiante, ciente de suas limitações, porém, com vontade de ir mais longe.

Denis cruzou a linha de chegada dentre os últimos e, vejam só: não participou do almoço de Ano Novo com sua família, nem teve de encarar as chacotas do cunhado inconveniente. E não foi por medo. É que os amigos que ele fez na São Silvestre o convidaram para um churrasco, em que comemorariam o feito de terem completado uma das provas mais tradicionais do calendário brasileiro, e talvez mundial, quando então aproveitariam a ocasião para criar uma equipe de corrida, já pensando num melhor desempenho na edição seguinte da prova.

Pequenas crônicas de uma eterna São Silvestre 4

Correr a São Silvestre é fazer uma viagem como passageiro de si mesmo. É um momento em que o ano todo passa pela sua cabeça, ocasião em que seus sentimentos são atravessados pela paisagem da cidade e a sensação de solidão se destaca no aglomerado de pessoas, todas elas concentradas no ritmo de suas passadas. É quando, no enorme burburinho, fala mais alto o silêncio. É quando lhe chama a atenção uma pequena muda de laranjeira que brotou por entre as frestas de uma calçada, e descobre-se que um copinho de água pode ser demais para quem tem sede de correr.

É quando Elvis Presley se encontra com Ayrton Senna, e um índio só de tanga, penacho e pés no chão supera na subida um outro sujeito que se veste como garçom. Uma disputa que se passa ali bem pertinho do homem-aranha, que ensaia um tímido “olá” ao Hulk, indiferentes os dois ao sósia do goleiro do Corinthians que insiste em fazer selfie a cada 100 metros. É quando se encontra velhos amigos e se faz amizade nova a poucos minutos da largada. É quando Lampião dialoga com Gandhi, e a moça que corre de noiva joga o buquê pelo caminho, desviando com cuidado do vômito quente deixado na Alameda Olga.

Correr a São Silvestre é dizer desaforos no meio da Rio Branco, sem medo de atropelamento, e ter uma sensação de amnésia diante do Memorial. É ler antes da largada um mundo de placas com nomes de cidades, nomes esses que, no auge do seu desespero, no meio da subida da Brigadeiro, lhe voltarão à mente em forma de loucura, de câimbra mental, com perguntas do tipo: “Por que nunca fui a Cerquilho?”; “Piraçununga ou Pirassununga?”; “Onde, meu Deus, ficará essa São Gonçalo do Rio Abaixo? (pra cima do rio?)”; “Como será que o pessoal do Macapá chegou até aqui?”; ou ainda, “Se eu jogar o número de peito do sujeito ali, de Aracaju, será que ganho no bicho?”.

Durante a São Silvestre descobre-se também que isotônico engordura o chão, e que com o novo trajeto, bem no cruzamento da Ipiranga com a São João, difícil será aquele corredor que entre uma respirada e outra não pensará na “Sampa”, do Caetano, com um leve temor de que “aconteça (literalmente) algo em seu coração”.
Correr a São Silvestre é se sentir apenas mais um na enorme massa humana, apesar de cada pessoa ali ter uma história particular com a corrida, seja ela confessável ou não. É saber que lá em casa muita gente da família vai te procurar na TV em meio àquele “bolo” na largada, e quase sempre não vai te achar, embora normalmente o sujeito que eles mais verão na tela será um corredor do continente africano, com suas passadas largas e respiração controlada.

Correr a São Silvestre é verificar tardiamente que tênis novo não serve pra ser estreado na prova, e que “pipocas” e inscritos se respeitam, pois há algo maior em disputa, que é essa paixão pela corrida. Descobre-se ainda que há aqueles corredores que esbanjam vitalidade e que tentam motivar outros já cansados, como há também aqueles que se arrependem logo no início e prometem se preparar melhor no ano seguinte. Há quem paquere, quem não dê a mínima e existem até aqueles que vão discutindo a relação da avenida Pacaembu até o viaduto do Chá.

Ah, há também aqueles amigos que filmam toda a corrida, e aqueles que timidamente erguem o braço quando passam perto das câmeras das emissoras. Há os que correm quase pelados e aqueles que carregam na cintura mil coisas que vão balançando pelo caminho. Há os corredores especiais que são um exemplo de dedicação para qualquer pessoa, e existem aqueles que assistem a prova do lado de fora, mas com o coração apertado de arrependimento de não estar naquela muvuca. 

Enfim, correr a São Silvestre é descobrir que essa cidade tão agitada durante o ano parece descansar nesse dia. A impressão que se tem é de que ela se envaidece de mostrar sua essência, sua história e arquitetura ao povo que passa correndo, compenetrado. Este também é o momento em que as pessoas agradecem a acolhida que essa metrópole proporciona a todos, sejam eles paulistanos, paulistas, pessoas de outros Estados e de outros países, atletas, obesos, torcedores, sedentários, fantasiados ou não, motivados, tristes, alegres, pagadores de promessa ou simplesmente viajantes.


E quando a prova termina, a sensação é de missão cumprida, de ano concluído e ali mesmo, na avenida Paulista, brota dentro de cada corredor uma forte disposição para enfrentar um novo período que se inicia, agora, com as bênçãos renovadas de São Silvestre.

Pequenas crônicas de uma eterna São Silvestre 1

Foi na São Silvestre de 2000, logo na descida da Major Natanael, que os olhares de Roberto e Letícia se cruzaram. Por uma fração de segundo houve uma identificação profunda entre eles. Letícia até deu uma leve piscadela a Roberto, passou por ele e seguiu em frente, ainda com passos moderados. Roberto ficou louco de desejo e queria acompanhar de perto aquela que, possivelmente, seria a mulher de sua vida, a moça que agora seguia à sua frente, com calça de ginástica colada ao corpo, rabinho de cavalo e um perfume inebriante.

Ela seguia ali, a apenas 2 metros dele, ops!, a pouco mais de 4 metros, corrige, a 20 metros, 40 metros... a inalcançáveis 2 quilômetros. Mas Roberto continuava firme, esbaforido, mas firme, na esperança de que ela o esperasse na linha de chegada. Quanto mais a linda moça se distanciava, mais Roberto morria de raiva das vezes em que fora vencido pela preguiça ao longo do ano.
Apesar dessa turbulência interior, e superando seus limites, Roberto se motivava com a chance de reencontrar a tal moça assim que cruzasse a linha de chegada. Mas não foi dessa maneira que a coisa aconteceu. Próximo do fim da prova, ele ainda estufou o peito e retirou um sorriso do fundo da alma para cruzar a linha com uma aparência “tranquila”, na esperança de que a garota o observasse.

Doce ilusão. Letícia já estava longe, talvez até em casa. Recobrado o fôlego, Roberto sentou-se no meio-fio para digerir a decepção, enquanto comia uma banana e apertava firme, com raiva, a barrinha de torrone entregue no kit ao final da corrida.

O fato é que Roberto jamais se esqueceu de Letícia e, de 2000 para cá, correu todas as provas da São Silvestre na esperança, de, quem sabe, reencontrar a linda moça de rabinho de cavalo na descida da Major Natanael, só pra lhe dizer um “oi” e, quem sabe, deixá-la para trás, de uma vez por todas.

É que nessa ânsia por reencontrar o grande amor de sua vida, Roberto tornou-se um exímio corredor, a ponto de talvez flecha nenhuma atirada por Cupido afetar seu coração. Hoje, Roberto se sente muito mais fortalecido e feliz, contagiado, sobretudo, pelo apaixonante ato de amor por si próprio que é o de correr.  

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Na esteira da vida

Encare seus sonhos
como malas.
Assim, se eles 
forem desfeitos,
um trabalho 
a menos
pra você.

Números

Meu olhar 43
não combina
com seu 
sapato 35.
Sou um cara
muto elástico
para alguém
que nunca
desafivela
esse raio
de cinto.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Ensaio que se ensaia

Modelo de olhar misterioso,
que nunca demonstra
a quem detesta
ou ama,
num ensaio 
que sempre se
ensaia, sem que
se experimente
o frio na barriga
de pisar no palco,
sem qualquer manha.
Como serão 
seus mamilos,
seus pelos pubianos?
Como será morder
a sua nuca suada?
Enfim, esse
ensaio que 
só se ensaia
sem que dê 
em nada,
em mim 
mais acende 
chama 
e o desejo
de um dia
saciá-la
plenamente
na cama,
um pouco
de rusticidade
de homem
no corpo 
de uma
sensível
e linda dama.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Esperança

Há quem leve emprestado a nossa esperança
feito livro, e nunca mais a devolva.
E quando isso acontece rumina
dentro de nós aquele desejo 
de que esse alguém, por descuido,
se depare no futuro
com essa nossa esperança,
que sempre será nossa,
só pra perceber entre 
remorsos e lágrimas
que ela trazia em seu interior 
uma delicada dedicatória 
feita com muito amor para 
essa pessoa sempre
tão displicente.

quarta-feira, 1 de abril de 2015