terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Fonte do prazer

A minha fonte do prazer,
pra ser sincero,
tem sempre serifa.  

Saudade safada

O que é a solidão, senão 
a saudade quando lhe
baixa a maldade
de insultar pra
sair correndo
num pega-pega,
gritando que 
já passou 
essa verdade cega
em que a gente
um dia tanto acreditou. 








Nem aí para os mistérios

Tonha era aquela velha senhora que vivia naquele sítio calmo em cidadezinha do interior, e com ela eu me sentia à vontade. Não precisava fazer pose ou puxar assunto interessante. Pouco lhe importava como eu estava vestido, se calçava chinelos ou tênis. Não me perguntava de onde eu vinha nem para onde eu ia. Na presença daquela senhora tudo era muito simples. O ar saía calmo do peito, o coração batia mais lento e naqueles instantes em que estávamos juntos eu sentia uma alegria enorme por estar vivo. Observávamos o vento nas árvores, o canto dos passarinhos e os cachorros brincando debaixo das mangueiras. Vez ou outra, um deles passava roçando o pé de manjericão e o perfume enchia a varanda daquela casa de roça. Ficávamos ali quietos, como se um colo quente nos acolhesse. Éramos então crianças diante da vida e de seus mistérios, e não estávamos nem aí para eles, queríamos mesmo era viver.

A boa palavra

A boa palavra é aquela
que nunca falta,
e que faz falta,
se precisar.

A boa palavra se
encaixa na poesia,
ataca, defende,
negocia e tem 
humildade
de ir pra barreira

A boa palavra,
quando faz um 
grande gol,
não vai à torcida,
nem arranca a 
camisa.

A boa palavra,
quando dá o 
seu recado
fica quietinha 
e com o olhar 
te avisa
que naquele
instante está feliz.





Memória

Às vezes, o reencontro com alguns amigos do passado é vazio. Voltamos correndo à velha escola e o pipoqueiro não está mais lá. Também não está mais lá a namoradinha do terceiro ano, e o boletim com notas vermelhas não pesa tanto. O que nos resta diante disso é dizermos amenidades, falarmos sobre futebol e tomarmos um café, não vendo a hora de sairmos correndo dali, daquela relação estranha. Hoje, as diferenças são gritantes. Cada um seguiu por um caminho, as histórias não batem mais e a relação que era sincera, virou uma disputa horrível, quando não, uma exaltação dos grandes feitos e dos bens conquistados. Entretanto, há amigos especiais, com os quais o retorno é uma volta quase real ao passado, e que sempre chega com figurinhas amassadas nos bolsos, e que sem cerimônia, se abaixa no chão e o convida a fazer o mesmo. E é ali, na brincadeira alegre e despretensiosa do "bafo" que voltamos a ser meninos, sem pensar no futuro, sem o pesar do presente, e quando vamos embora fica sempre a certeza de que em algum lugar alguém estará na mesma doce sintonia de um passado que não passa.       

Café

De repente, resolveu tomar todos os cafés que prometera ao lado dos amigos. E, depois de quase três meses sem dormir, morreu. Mas morreu com a consciência tranquila, apesar dos dentes manchados e do alto nível de cafeína no sangue. Na hora do enterro, o padre lhe desejou o sono eterno, mas eu pensei comigo: será que ele do outro lado conseguirá dormir, depois de tanto café?


O amor e seu papel

Cravou com canivete as iniciais dos dois dentro de um coração na casca de uma árvore. Só que essa árvore era pinho, daquelas usadas para se fazer papel. Poucos meses depois, lá se foi ela ao chão, cortada para virar celulose. A vida é assim, há amores que duram décadas, outros logo se acabam, sejam eles de papel passado ou não. Bons são os amores que não se escrevem em lugar nenhum. 

Uma misturaiada

Sou uma soma dum monte de coisas.
Um pouquinho de areia que veio no chinelo.
Um sorriso de alguém que vi na rua.
Um pouco de você molhada e que secou em mim.
Uma recordação de um perfume.
Uma fotografia em preto e branco.
Um afago de pai.
Um chá de mãe.
Uma gargalhada de amigo.
Uma bola dente de leite.
Um time de botão.
Um quase sim.
Um quase não.
Um irmão.
Uma música.
Um solo de gaita.
Um sol ardido.
Um banho de chuva.
Sou assim, uma misturaiada,
casa caiada respingada de barro,
troncos de jangada loucos para
a corda se quebrar. O que eu
quero mesmo é me misturar
docemente no salgado desse mar.

Cupido

A Lua ficou cheia de mim
e de meus amores platônicos.
Resolveu dar um tempo,
parar de me inspirar.
Foi servir de bola ao
futebol dos anjos,
rolar de pé em pé,
pra ver se assim
encontra um anjo Pelé,
que acerte os corações
dos apaixonados
bem na forquilha do
sentimento, fora do
alcance das mãos
do sempre atento
goleiro chamado
Razão.



Anéis de Saturno

Ouviu a música da Rita Lee
e, de tão apaixonado, foi
roubar os anéis de Saturno.
Só que a polícia interplanetária
o pegou no flagra.
Agora está preso numa
dessas constelações,
e aquela moça tão desejada
vive a suspirar
diante de um céu estrelado,
pensando consigo mesma:
"onde é que foi se meter
aquele safado?"






Coisinhas

Meus vasinhos,
meus vizinhos,
um cão que vem
de vez em quando.
A chuva que cai à noite
enquanto tomo café
com leite.
Bolo quente à tarde,
água mineral com
folhas de hortelã.
Enfim... enquanto costuro
os furos nas meias,
pensando em tudo isso,
nesses pequenos detalhes,
é que percebo
o quanto já sou feliz
no meu silêncio.

Nas nuvens

Ele deixou tudo nas nuvens.
Ela também. E as duas carregadas
liberaram uma descarga elétrica
enorme, e houve raio, houve trovão
e choveu
e vazou...
E vazou
informação
até dizer chega.
Depois disso, ele e ela,
sem mais segredos,
pegaram seus barcos,
um azul e outro amarelo,
e foram navegar,
não mais na internet,
mas no mar mesmo,
pois após aquele
pé d'água abriu um
tremendo de um
solzão.

Fétidos

Aquele parlamentar,
ainda moço,
havia chegado
ao fundo do poço.
Não como balde,
não como corda,
não como água,
mas como troço.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Muitos assim

Ela lhe deu um abraço
tão apertado que ele,
sempre insensível,
voltou à loja e pediu
para trocar por outro
mais folgado.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Réu

Estava amedrontado,
cheio de culpa.
É que vivia
uma
"réu-lação".

Abrir-se

Na sala do psicólogo, durante
uma sessão, o guarda-chuva
se abriu todo, depois nunca
mais voltou.
E isso porque, quando agiu assim,
o psicólogo o advertiu
que aquilo dava azar.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017