terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Nem aí para os mistérios

Tonha era aquela velha senhora que vivia naquele sítio calmo em cidadezinha do interior, e com ela eu me sentia à vontade. Não precisava fazer pose ou puxar assunto interessante. Pouco lhe importava como eu estava vestido, se calçava chinelos ou tênis. Não me perguntava de onde eu vinha nem para onde eu ia. Na presença daquela senhora tudo era muito simples. O ar saía calmo do peito, o coração batia mais lento e naqueles instantes em que estávamos juntos eu sentia uma alegria enorme por estar vivo. Observávamos o vento nas árvores, o canto dos passarinhos e os cachorros brincando debaixo das mangueiras. Vez ou outra, um deles passava roçando o pé de manjericão e o perfume enchia a varanda daquela casa de roça. Ficávamos ali quietos, como se um colo quente nos acolhesse. Éramos então crianças diante da vida e de seus mistérios, e não estávamos nem aí para eles, queríamos mesmo era viver.

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