Naquela monotonia do céu, dois anjos passam voando rapidamente, um bem próximo ao outro, cada qual com seu arco e flecha, e quase colidem, tamanha a ansiedade em fazerem com que alguém se apaixone na Terra. São cupidos, aqui chamados de A e B. Já estão desesperados por não conseguirem cumprir sua missão há um bom tempo.
- Olha por onde anda! Diz o cupido A.
- Olha por onde anda você? Responde o cupido B
- Me desculpe, é que já faz um tempão que não consigo flechar ninguém. As pessoas não querem mais se apaixonar.
- É verdade. De tanto não flechar ninguém minha mira está um horror.
- Pois é. Com esse negócio de celular, nem aquele amor à primeira vista está funcionando mais. Ninguém olha pra ninguém na rua, no ônibus, no trem, no metrô...
- Nem me fale.
- Minha mira também está péssima. Eu já perdi várias flechas esta semana. Umas foram parar em árvores, duas furaram pneus de carro e uma outra ficou fincada numa melancia, lá na feira.
- Dá um desânimo, né?
- Se dá. Anjos cupidos que não servem mais pra nada.
- E o que faz um anjo cupido quando se aposenta?
- Deve ser apaixonar por uma ideia. Rss
- Sabe que eu trabalho nesse negócio há anos, mas ainda não sei o que é o amor? Eu só sei que tenho de acertar essa flecha no coração de duas pessoas, que assim se apaixonam, infalivelmente. Feito isso, acaba meu compromisso com elas e sigo então em busca de outras pessoas para juntá-las. Nossa missão é espalhar o amor, mas está difícil.
- É, eu também não sei o que é o amor. Aliás, vou mais longe, nem sei a diferença entre amor e paixão, pois nunca experimentei nenhum deles.
- Engraçado. A gente até parece aqueles motoboys que entregam comida de restaurante chique, mas que nunca têm a oportunidade de experimentar os pratos sofisticados.
- Concordo contigo.
- E olha que eu já fiz coisas legais nessa vida.
- Eu também. Qual foi o seu maior feito?
- Tenho vários. Há um casal que eu flechei e que já está junto há 50 anos.
- Nossa, que legal.
- Sim. E eles ainda se desejam, querem estar um ao lado do outro. Passeiam juntos, riem juntos. São inspiradores. E você, qual foi o trabalho de que mais se orgulha?
- Ah, já fiz também tanta coisa interessante. Já aproximei vários casais. Gente famosa, gente simples, gente simples com gente famosa... Gente velha com gente moça, gente que deu o primeiro beijo e nunca mais se separou. Enfim, é sempre muito gratificante. Mas de uns anos para cá, nem juntar casais que tem tudo a ver eu tenho conseguido. São pessoas muito parecidas, mas que não dão chance de o outro se aproximar. Dizem que se bastam. Daí a gente dança.
- E veja como fica ressecado o mundo sem amor. Uma chatice só. Tem agora o amor cibernético, em que tudo é a distância. E assim nós é que ficamos cada vez mais distantes da Terra, sem conseguir fazer com que pessoas vivam grandes paixões, descubram amores verdadeiros... Elas perdem a oportunidade de sentir as famosas “borboletas no estômago”, como dizem os poetas.
- Você tem razão. Nós também nunca sentimos essas tais borboletas. Só as imaginamos. Enfim, se a coisa continuar assim, sinto que vamos ter de partir para outra atividade aqui no céu. Você sabe tocar lira?
- Eu não. Eu era bom no arco e flecha, e só. Mira fatal. Só que com o passar dos anos, parece que minha precisão tem diminuído. Não tenho conseguido praticar com frequência. Sem falar nesses óculos de fundo de garrafa que agora eu uso.
- Eu estou igual a você. Tem me batido uma solidão de vez em quando. Eu ando pela Terra, ando, ando, não vejo a possibilidade de juntar ninguém, daí, volto para casa mais cedo e a cabeça começa a ficar bagunçada. Eu também me atrapalho de vez em quando com a pontaria e então me vêm ideias erradas na cabeça.
- Não vai me dizer que está pensando em trabalhar para o diabo?
- Às vezes dá vontade, sabe, mas depois me arrependo só de pensar. Estourar balões de crianças não é comigo. E juntar gente que não pode ser juntada pode acabar em morte, sabia?
- Pois é. Trabalhar para o Demo é emoção garantida, mas meu coração solitário também não pede isso. É tão gostoso quando você consegue bancar o cupido-raiz, juntando gente que está louca para namorar, para ir ao cinema, para gerar filhos, para passear na praia de mãos dadas e, claro, para também segurar a barra juntos...
- É muito gratificante ver a alegria dos que são flechados, e saber que você deu uma forcinha ao que eles chamam de “destino”.
- Cupido, volto a dizer que trabalhamos com um produto que no fundo nós não o conhecemos direito.
- Acho que talvez isso não seja para anjo...
- Concordo. Mas eu tenho curiosidade em saber como é esse tal de amor.
- E eu, essa famigerada paixão.
- Bom, como estamos com a mira ruim, por que não vamos juntos quando surgir mais uma oportunidade de juntar duas pessoas afins? Assim, teremos chances duplicadas de acertar os nossos alvos.
- É, sabe que isso pode ser uma boa ideia?
- Mas a gente tem de ter cuidado para não distribuir flechas a torto e a direito fazendo duas pessoas se apaixonarem por uma terceira, uma quarta, uma quinta... Por um time inteiro de futebol.
- É mesmo. Isso sempre dá rolo. Eu às vezes me empolgo e começo a atirar várias flechas, uma atrás da outra. É que quando acontece de eu sentir um clima de paixão no ar não gosto de perder a chance. Eu sempre torço para que tudo dê certo. Mas faz tempo que as coisas não acontecem assim.
- Esse povo anda muito triste. Cada um na sua. Preferem socos a beijos. Palavrões a um “eu te amo”. Curtem coisas sem nexo a um bom sexo... E nosso tempo correndo, cupido. Creio que estamos ficando velhos demais para acreditar no amor.
- Pois é. E se isso acontecer, aí é que esse povo vai se lascar, mesmo. Precisamos resistir, cupido.
- Você tem razão.
- Eu não tenho qualquer preconceito quando sinto que duas almas juntas poderão ser mais felizes do que sozinhas.
- Eu também não. Adoro uma história de amor, qualquer que ela seja.
- Então está combinado. Vamos começar a sair juntos, andando pela Terra em busca de flechar pessoas para o amor. Vamos em dupla.
E assim, num sábado ensolarado, os dois cupidos pegaram seus arcos e flechas e mergulharam lá do céu até chegarem num parque. Andaram, andaram e quase desistiram. Até que, de repente, viram quando um pivete passou de bicicleta e numa tacada só levou os celulares de dois jovens, um garoto e uma garota, ambos com seus 17 anos, que sentados bem próximos no gramado, e com o olhar vidrado cada qual em seu aparelho, não haviam percebido a presença um do outro, e muito menos a do ladrãozinho.
Mas assim que os jovens levaram aquele susto com o assalto, quase que simultaneamente se levantaram e seus olhares desesperados se cruzaram. Naquela hora, os cupidos A e B não tiveram dúvidas. Um foi para trás do garoto com a missão de acertar com a flecha o coração da garota; e o outro foi para trás da garota com a intenção de flechar o coração do menino.
Fizeram suas miras, mas no exato momento do disparo um pássaro deu um rasante e um cupido acabou acertando o outro. Conclusão, se apaixonaram imadiatamente, e os jovens ficaram na saudade.
A partir de então, os cupidos compreenderam o significado da paixão e também descobriram a dimensão maior do amor. Eles abandonaram o arco e flecha e passaram a desfrutar de uma vida cheia de descobertas, indo morar felizes no sétimo céu.
Já os jovens, naquele dia, foram cada um para o seu lado. Perderam a chance de se apaixonar. Compraram celulares novos e agora vivem nos aplicativos de relacionamento, em busca de um par perfeito a quem possam chamar para sempre de "meu anjo".
FIM