sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O difícil ofício de um cupido

 Naquela monotonia do céu, dois anjos passam voando rapidamente, um bem próximo ao outro, cada qual com seu arco e flecha, e quase colidem, tamanha a ansiedade em fazerem com que alguém se apaixone na Terra. São cupidos, aqui chamados de A e B. Já estão desesperados por não conseguirem cumprir sua missão há um bom tempo.

- Olha por onde anda! Diz o cupido A.

- Olha por onde anda você? Responde o cupido B

- Me desculpe, é que já faz um tempão que não consigo flechar ninguém. As pessoas não querem mais se apaixonar.

- É verdade. De tanto não flechar ninguém minha mira está um horror.

- Pois é. Com esse negócio de celular, nem aquele amor à primeira vista está funcionando mais. Ninguém olha pra ninguém na rua, no ônibus, no trem, no metrô...

- Nem me fale.

- Minha mira também está péssima. Eu já perdi várias flechas esta semana. Umas foram parar em árvores, duas furaram pneus de carro e uma outra ficou fincada numa melancia, lá na feira.

- Dá um desânimo, né?

- Se dá. Anjos cupidos que não servem mais pra nada.

- E o que faz um anjo cupido quando se aposenta?

- Deve ser apaixonar por uma ideia. Rss

- Sabe que eu trabalho nesse negócio há anos, mas ainda não sei o que é o amor? Eu só sei que tenho de acertar essa flecha no coração de duas pessoas, que assim se apaixonam, infalivelmente. Feito isso, acaba meu compromisso com elas e sigo então em busca de outras pessoas para juntá-las. Nossa missão é espalhar o amor, mas está difícil.

- É, eu também não sei o que é o amor. Aliás, vou mais longe, nem sei a diferença entre amor e paixão, pois nunca experimentei nenhum deles.

- Engraçado. A gente até parece aqueles motoboys que entregam comida de restaurante chique, mas que nunca têm a oportunidade de experimentar os pratos sofisticados.

- Concordo contigo.

- E olha que eu já fiz coisas legais nessa vida.

- Eu também. Qual foi o seu maior feito?

- Tenho vários. Há um casal que eu flechei e que já está junto há 50 anos.

- Nossa, que legal.

- Sim. E eles ainda se desejam, querem estar um ao lado do outro. Passeiam juntos, riem juntos. São inspiradores. E você, qual foi o trabalho de que mais se orgulha?

-  Ah, já fiz também tanta coisa interessante. Já aproximei vários casais. Gente famosa, gente simples, gente simples com gente famosa... Gente velha com gente moça, gente que deu o primeiro beijo e nunca mais se separou. Enfim, é sempre muito gratificante. Mas de uns anos para cá, nem juntar casais que tem tudo a ver eu tenho conseguido. São pessoas muito parecidas, mas que não dão chance de o outro se aproximar. Dizem que se bastam. Daí a gente dança.

- E veja como fica ressecado o mundo sem amor. Uma chatice só. Tem agora o amor cibernético, em que tudo é a distância. E assim nós é que ficamos cada vez mais distantes da Terra, sem conseguir fazer com que pessoas vivam grandes paixões, descubram amores verdadeiros... Elas perdem a oportunidade de sentir as famosas “borboletas no estômago”, como dizem os poetas.

- Você tem razão. Nós também nunca sentimos essas tais borboletas. Só as imaginamos. Enfim, se a coisa continuar assim, sinto que vamos ter de partir para outra atividade aqui no céu. Você sabe tocar lira?

- Eu não. Eu era bom no arco e flecha, e só. Mira fatal. Só que com o passar dos anos, parece que minha precisão tem diminuído. Não tenho conseguido praticar com frequência. Sem falar nesses óculos de fundo de garrafa que agora eu uso.

- Eu estou igual a você. Tem me batido uma solidão de vez em quando. Eu ando pela Terra, ando, ando, não vejo a possibilidade de juntar ninguém, daí, volto para casa mais cedo e a cabeça começa a ficar bagunçada. Eu também me atrapalho de vez em quando com a pontaria e então me vêm ideias erradas na cabeça.

- Não vai me dizer que está pensando em trabalhar para o diabo?

- Às vezes dá vontade, sabe, mas depois me arrependo só de pensar. Estourar balões de crianças não é comigo. E juntar gente que não pode ser juntada pode acabar em morte, sabia?

- Pois é. Trabalhar para o Demo é emoção garantida, mas meu coração solitário também não pede isso. É tão gostoso quando você consegue bancar o cupido-raiz, juntando gente que está louca para namorar, para ir ao cinema, para gerar filhos, para passear na praia de mãos dadas e, claro, para também segurar a barra juntos...

- É muito gratificante ver a alegria dos que são flechados, e saber que você deu uma forcinha ao que eles chamam de “destino”.

- Cupido, volto a dizer que trabalhamos com um produto que no fundo nós não o conhecemos direito.

- Acho que talvez isso não seja para anjo...

- Concordo. Mas eu tenho curiosidade em saber como é esse tal de amor.

- E eu, essa famigerada paixão.

- Bom, como estamos com a mira ruim, por que não vamos juntos quando surgir mais uma oportunidade de juntar duas pessoas afins? Assim, teremos chances duplicadas de acertar os nossos alvos.

- É, sabe que isso pode ser uma boa ideia?

- Mas a gente tem de ter cuidado para não distribuir flechas a torto e a direito fazendo duas pessoas se apaixonarem por uma terceira, uma quarta, uma quinta... Por um time inteiro de futebol.

- É mesmo. Isso sempre dá rolo. Eu às vezes me empolgo e começo a atirar várias flechas, uma atrás da outra. É que quando acontece de eu sentir um clima de paixão no ar não gosto de perder a chance. Eu sempre torço para que tudo dê certo. Mas faz tempo que as coisas não acontecem assim.

- Esse povo anda muito triste. Cada um na sua. Preferem socos a beijos. Palavrões a um “eu te amo”. Curtem coisas sem nexo a um bom sexo... E nosso tempo correndo, cupido. Creio que estamos ficando velhos demais para acreditar no amor.

- Pois é. E se isso acontecer, aí é que esse povo vai se lascar, mesmo. Precisamos resistir, cupido.

- Você tem razão.

- Eu não tenho qualquer preconceito quando sinto que duas almas juntas poderão ser mais felizes do que sozinhas.

- Eu também não. Adoro uma história de amor, qualquer que ela seja.

- Então está combinado. Vamos começar a sair juntos, andando pela Terra em busca de flechar pessoas para o amor. Vamos em dupla.

E assim, num sábado ensolarado, os dois cupidos pegaram seus arcos e flechas e mergulharam lá do céu até chegarem num parque. Andaram, andaram e quase desistiram. Até que, de repente, viram quando um pivete passou de bicicleta e numa tacada só levou os celulares de dois jovens, um garoto e uma garota, ambos com seus 17 anos, que sentados bem próximos no gramado, e com o olhar vidrado cada qual em seu aparelho, não haviam percebido a presença um do outro, e muito menos a do ladrãozinho.

Mas assim que os jovens levaram aquele susto com o assalto, quase que simultaneamente se levantaram e seus olhares desesperados se cruzaram. Naquela hora, os cupidos A e B não tiveram dúvidas. Um foi para trás do garoto com a missão de acertar com a flecha o coração da garota; e o outro foi para trás da garota com a intenção de flechar o coração do menino.

Fizeram suas miras, mas no exato momento do disparo um pássaro deu um rasante e um cupido acabou acertando o outro. Conclusão, se apaixonaram imadiatamente, e os jovens ficaram na saudade.

A partir de então, os cupidos compreenderam o significado da paixão e também descobriram a dimensão maior do amor. Eles abandonaram o arco e flecha e passaram a desfrutar de uma vida cheia de descobertas, indo morar felizes no sétimo céu.

Já os jovens, naquele dia, foram cada um para o seu lado. Perderam a chance de se apaixonar. Compraram celulares novos e agora vivem nos aplicativos de relacionamento, em busca de um par perfeito a quem possam chamar para sempre de "meu anjo".

FIM

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Agente secreto

Era um agente secreto ruim,

e acabou demitido.

Diante do sigilo absoluto que

uma vaga nesse setor requer, 

e de sua pouca habilidade na busca

por informações confidenciais,

nunca mais ficou sabendo 

de uma mísera vaga, e

abandonou a profissão.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Gestores e gestores

Há gestores que correm riscos 

por seus subordinados 

em virtude de seus espíritos

inovadores, empatia e criatividade.

Mas há gestores cujo

único risco que correm 

é o de cair de cima do muro

onde há anos se equilibram.

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Apenas números

Nas empresas, salvo exceções, 

somos apenas números.

A questão é perceber logo 

de que lado da vírgula estamos.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Crime passional

 

Naquela casa tinha um João-bobo, que ficava entre os brinquedos das crianças. Havia também uma boneca inflável que era guardada num armário. Certo dia, a Joana-boba, que de boba não tinha nada, flagrou o marido com a boneca inflável. Não teve dúvidas, furou os dois com uma faca, os quais deram seus últimos suspiros sem antes fugirem voando do local. Ela então ficou ali, no local, em estado de choque. Agora, vez ou outra, as crianças a flagram se mexendo sozinha, para frente e para trás, como se se lamentasse de seu ato impensado, tomada que foi pelo ciúme.

sábado, 29 de agosto de 2020

Sobre um casal de velhinhos

O velhinho e a velhinha seguem de mãos dadas pela rua após a chuva de verão. Temem escorregar, temem que um escape do outro. Temem que os escorregões ao longo da vida, de ambos, se levantem. De repente, ele pisa, de propósito, na poça d´água, que molha as canelas finas da velhinha. Ela, de pronto, golpeia o companheiro carinhosamente com o guarda-chuva já recolhido. Os dois riem, se sentam num café e ficam olhando o mar.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Choro pré-datado


Fez-se de durona
e não chorou na frente dele,
pré-datando um choro
que nunca mais
conseguiu descontar.
Isso porque,
a partir dali,
ao deixar o tal sujeito,
sua vida foi só felicidade.