quinta-feira, 25 de abril de 2013

A lua cheia: mais desespero aos desesperados, ou tudo de bom aos enamorados...

A lua cheia em vez 
de ser Sonrisal
para curar a azia 
daqueles cujos sonhos
estão mal digeridos 
no estômago do 
desejo, pelo contrário,
aumenta a acidez,
o tesão, a febre.
E esse tempero 
de luz picante
e suave envolve 
a comida da qual 
se quer se fartar 
até dizer chega,
misturando rompantes
de prisioneiro faminto
com a delicadeza de 
quem aprecia
com moderação
o ato de mordiscar
cuidadosamente
os dois mamilos.


  

sexta-feira, 19 de abril de 2013

SCMR

Às vezes,
quem se diz 
íntegro
entrega
que não
se integra
quando
simplesmente...
entrega.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Sobre gemas e algemas

De repente, se estoura a gema mole do ovo
e se lambuza todo de amarelo,
mas bem podia ser de vermelho,
cor de sangue, de vida.

E sem se dar conta
já se embarcou em
nova viagem,
talvez com passagem
só de ida.

Quebram-se as cascas,
as gemas,
as algemas,
e o sorriso franco
volta doce
e cítrico
feito laranja...

...renovando a 
vida de um galo,
que até há pouco
esperava somente
protagonizar
uma triste e
derradeira canja.

O "x" da questão

"Eique" ou "Aique" ?
A pronúncia não 
sei não.
Está aí o "x" da 
questão. 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Torneira

Que nos abramos em aberturas f1.0, f1.8, f2.0,
menos não, para que esse obturador nosso,
o do sonho (e do desejo),
ajuste-se em velocidade bem lenta,
quase bulb, quase tântrico,
deixando que tudo voe
em harmonia,
inclusive as questões do 
dia a dia,
e que dessa maneira,
nessa banheira,
tudo transborde e 
escorra pela casa inteira,
sem que haja forças,
vontade, preocupação
de sequer fechar 
essa nossa torneira.

Na quina

Foi na escuridão da sala,
percorrendo por entre os móveis,
que percebi que
uma dor pungente e 
inesperada na canela,
daquelas que 
abala a nossa calma,
dói muito mais do
que as angústias
que tentamos esconder
nas profundezas 
de nossa alma.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Saudade volátil

Minha saudade de você
não é que nem 
faca no peito
que dói 
uma vida inteira
até o sangue 
todo se 
esgotar.
Minha saudade de você
dói de vez em quando
não vou negar.
Mas a dor que sinto
é passageira, 
é como éter na
cabeça do pinto,
que arde, mas
que logo passa,
se evapora,
à medida  
que eu vou
em busca
do que realmente
me vale a pena,
de peito aberto,
livre, contra o vento.

Leveza

No Metrô, em meio
a um mundo de gente,
quase ele cai no
vão, no vão que existe
entre as diferentes
indiferenças que 
de longe parecem 
todas iguais.

Já dentro do vagão
viu pela janela
um poesia de 
Fernando Pessoa,
o único a lhe compreender
ali os seus 
inúmeros ais.

Recobrou a esperança,
retomou a carga de 
delicadeza e sorriu
à massa humana.
Facilitou a saída
de outro passageiros,
pediu licença
e de repente
pareceu levitar,
em paz.

Suspenso fisicamente pela turba
e em espírito pela poesia,
não tinha mais os pés no chão,
estava em outra esfera,
já não se sentia
sob a terra,
mas à beira de 
um tranquilo cais.

O guarda-chuva

De repente, aquela chuva que cairia, não caiu, e o guarda-chuva novo permaneceu fechado, triste, à espera de um pé d'água inaugural
que justificasse a sua estreia.

Dias depois, veio um temporal seu dono o desprezou, tamanha a força da tempestade. Ele de nada serviria naquele momento.

Até que já cansado e sem esperanças foi empunhado com veemência, usado como porrete, sempre fechado, para afastar um cachorro raivoso que desferia
mordidas a torto e a direito.

Terminada a luta, o cão saiu correndo e o guarda-chuva, todo esfacelado, foi 
jogado em lixeira da cidade. Não viveu para seu propósito, não conseguiu se abrir para a vida, não sentiu a chuva. E ali, com todas as varetas expostas,
concluiu que seu destino havia sido apenas... mera armação.


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