Aquele era um livro para ser lido de cabeça para baixo. Indicado
para trapezistas, crianças que se dependuram em árvores e deixam o cabelo
escorrer, seguindo a lei da gravidade, ou para ser degustado em meio a um
tropeço, quando tudo vira ao contrário, momentos antes de se ir ao chão.
Era um livro para pessoas ousadas, que não sofriam com vertigem ou
para aquelas corajosas que, mesmo com náuseas, enfrentavam ficar de
ponta-cabeça só para lê-lo. Era um livro para os desavergonhados, que encaravam
as críticas do ato insólito e também para os simples que nem se davam conta de
que eram alvo de chacotas quando praticavam a leitura plantando bananeira.
Mas esse livro não aguentava desaforos. Ele fugia às regras e
assim devia ser entendido, e lido. Houve certa vez um sujeito, cheio de
rigidez, que tentou padronizá-lo e foi lê-lo da maneira convencional. As
palavras todas escorreram e foram parar no chão. E o tal sujeito só percebeu o
quão vazio ele era, quando não conseguiu escrever uma linha sequer no espaço em
branco deixado em cada página após a fuga das palavras.