sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Em bom português

Era uma vez um garoto que entrou no ônibus e disse:

- Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, mas eu estou aqui, pedindo uma ajuda.

Aí, um sujeito catedrático, daqueles chatos que esbanjam cultura corrigiu o pobre garoto:

- Você poderia falar de uma forma mais culta, utilizando-se do futuro do pretérito. Você deveria dizer assim: "eu poderia estar matando, eu poderia estar roubando, mas estou aqui lhes pedindo algum dinheiro". Veja que estamos falando no condicional. Nós, passageiros, poderemos ou não lhe dar alguma ajuda.

Então, o moleque, que não era bobo, nem nada, fechou a cara e disse, num futuro do presente que foi entendido por todos:

- Eu poderei roubar, eu poderei matar se vocês não me passarem a grana. 

O garoto falou isso enquanto sacava uma arma. Cerca de dois minutos depois, desceu no ponto seguinte e sumiu no mundo, cheio de carteiras, celulares e até um laptop.

Antes de deixar o ônibus, contudo, ainda gritou em bom português:

- Perdeu, busão!

E o catedrático, lá de dentro, sem se dar por vencido, corrigiu o garoto:

- Perderam, passageiros do ônibus! Vai estudar moleque!

E o pessoal daquele coletivo, já de saco cheio e sem seus pertences, mandou o tal catedrático pros quintos dos infernos, em todos os tempos verbais.



Táxi

De repente, a palavra não vem.
Ela tem esse direito.
E você fica ali,
parado, no ponto da inspiração
praguejando, olhando para
o relógio, olhando para o chão.
Olhando para a rua...
Espere, espere.
Mas nem pense em 
tomar um táxi que 
já vem cheio 
das ideias fáceis
e previsíveis.
Não faça isso
porque eu já fiz.
Você vai perceber
o que lhe digo
neste texto que
escrevi, um enrolar
de ideias para
chegar a lugar nenhum,
e que me custará
muito caro.





quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Caçoando

De repente, tudo dá certo, sem que você perceba. Aquele chute despretensioso entra no ângulo e você sai pro abraço, que agora tem quem o retribua. E viver parece valer a pena. Você dorme se sentindo rei, e até os jacarés que vivem no fosso em torno do seu castelo demonstram estar mais felizes. Esse estado de êxtase precisa ser fotografado, ampliado, pendurado na parede, para que quando vierem aquelas segundas-feiras frias e solitárias, dias em que nada dá certo, que você perceba que isso também é transitório, incômodo feito supositório, mas que logo some, dando lugar novamente à alegria que vira alergia, que volta a ser alegria de tanto a gente de coçar. Acho que viver é isso: um eterno se coçar, caçoando daqueles que acreditam que tudo está sempre no mesmo lugar.

Bexiga

Um beijo adiado.
Um arroto postergado.
Um peido pré-datado.
Um vazio e cheio 
dentro de mim.
Como se eu fosse
uma enorme
bexiga vacilante
rolando por 
aí, ora no céu,
ora no chão,
na iminência
de uma explosão e
assim,
de meu próprio 
fim.

No trem - Impressões

Na segunda-feira de manhã,
sentada no trem, a caminho
do trabalho, a moça bonita, 
e com olheiras, que passou 
o final de domingo
metendo, metendo e metendo
comia com ar de tristeza e a cabeça 
não se onde um fumegante
pão de queijo.
A quentura do pão queimava
sua boca sapecada,
retirava parte do seu 
batom e no fone de ouvido 
a lembrança dos gemidos
de ontem misturada 
ao martelante funk, 
de sempre.

A moça e o sorriso

Aquela moça
só ficava bonita
quando sorria.
Só que ela
disso não 
sabia.
Então, achava-se
feia por aí,
séria, 
com cara
de azia.

Até que um
dia, diante
do espelho
ficou vermelha
explodindo 
em gargalhada
nervosa.

Foi aí que 
percebeu
que assim 
ficava linda,
sexy e charmosa.

O jeito foi 
mudar o astral
e hoje, além 
de linda,
essa moça
é também 
muito legal.

Re-seios

Respeito
Receio
Recheio
Seio
Seios
Re-seios
Res-peito
duas mãos cheias
uma mão na cara.
Fim do desejo.
Fim da tara.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Falando sozinho

O louco que ontem 
parecia falar sozinho,
não era louco, não. 
Tinha um celular
invisível e falava 
à exaustão
com a Fonte Provedora
pois os dois
a meu ver,
na loucura que
é essa vida,
têm a mesma
operadora.

Confiança

A minha confiança
vem da minha 
total desconfiança
de que o 
mal esteja
dizendo a verdade.

Maçã

Era uma vez Adão e Eva,
no paraíso.
A serpente ofereceu-lhes
algo com uma 
maçã mordida,
e, por isso,
nenhum dos dois 
atreveu-se a
mordê-la.
Também
ninguém foi 
expulso.
E foi ali,
sentados
bem juntinhos,
sob a sombra
da macieira
que Adão e
Eva
começaram
a conhecer
o paraíso 
e além dele,
com os
olhos fixos
na tela de
um Apple. 


Em questão

Aquele amigo 
que não te
deixa ser 
você
porque 
te para, sempre,
talvez não 
seja um 
amigo
para sempre.

Porco inteligente

Era um porco inteligente,
pois comia
"lavagem cerebral".
E assim, vivia
vasculhando a 
terra para ver
se achava 
livros enterrados
lá no fundo 
do quintal.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Difícil abordagem

Oi !
E ai ?!
Então..
Só !
Pois é !
Como as 
bocas
são 
econômicas
com as 
palavras
quando elas
querem mesmo
é beijar.

Da boca pra dentro, da boca pra fora

A delícia da vida 
está em beber
aquele copão de
Coca-cola gelada.
Mas isso não 
é tudo, não.
Esse prazer
só se completa
com um estrondoso
arrotão.

Um tonto no ponto

Como sou tonto.
Durmo no ponto
passo do ponto
e quando penso
que é romance
ele vira conto.
Mas como o 
ponto nem 
sempre é 
final,
esse meu conto
ainda pode ser 
de fadas
ou do vigário,
desde que 
o ônibus
da sorte
pare no meu 
ponto,
mudando 
de itinerário.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A louça e o radinho AM

Lavo a louça ouvindo
radinho AM e
sei que os cronistas
esportivos nunca
chegarão a um 
consenso,
como sei
que a louça sobre
a pia nunca 
deixará de 
existir.

Uma paz
me arrebata,
não há 
malas para
extraviar,
não há a
curiosidade
de provar 
o caviar.

Eu quero apenas
continuar lavando
a louça, ouvindo
radinho AM e
sentindo 
aquele perfume
de dama-da-noite
que entra pelo 
vitrô da cozinha,
vindo do jardim.

E assim vou 
eu, sem feitos
heroicos,
sem rompantes
meteóricos,
pensando no
chá de hortelã
que farei logo 
em seguida,
para brindar 
no espelho
contando as
listras de 
meu pijama
de flanela.

E viva o cotidiano,
cujo ato mais
leviano é
repetir à
exaustão
coisas mínimas
que seriam
melhores
sorvidas
se houvesse
por elas
mais atenção.






Pregador de esperança


Ele pregava a esperança 
com marteladas precisas, 
embora às vezes
acertasse o dedo,
ao deixar de lado 
a criança 
e mirar a atenção tão 
somente no medo.

domingo, 25 de agosto de 2013

Dom de esperar

Olê, muié rendera
com sua calcinha de renda
vive me dando olé
e não me ensinar 
a namorar.

Apaga esse lampião
deixa a calcinha 
no chão e
vem comigo 
na rede deitar.

Já se foi o cangaço
mas ainda não perdi
o cagaço de você
talvez não me aceitar.

E sei isso acontecer,
e nada rolar,
me ensina mesmo 
a fazer renda
que eu te ensino
o  dom supremo 
de esperar. 



quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Não fui

Contigo
eu gostaria
de sempre ter ido
mas
sem-pre-pre-te-ri-do
não fui
contigo.

Não tema o mote

Não tema o mote
pra se chegar 
à rima.
Rima que
às vezes
passa lentamente,
às vezes
a galope.
Pois nessa 
obsessão 
de se pegar
a palavra certa
com as mãos
tetas e decotes
sempre rimarão.

Carência

Sinto-me tão carente
que é só você
passar bem rente,
e ir embora,
que parece
já ter me dado
um fora.

domingo, 11 de agosto de 2013

Sentimento de domingo à noite

Não sei se estou ficando velho ou se meu menino interior está cansando de subir na casa que ele fez em cima da árvore, a qual batizou de "esperança". 

Pizza e sedução

Tive a estranha experiência de comprar uma pizza e sair caminhando cuidadosamente com ela em uma das mãos pelas ruas da cidade até chegar em casa. Ela estava fumegante e exalava um cheiro maravilhoso, despertando a atenção das pessoas que cruzavam por mim pelas calçadas de meu bairro. 

O curioso é que todos que me viam desferiam um olhar voluptuoso, malicioso, como se eu estivesse abraçado a uma linda garota vestida só de lingerie e que usava um instigante perfume francês.

As pessoas me olhavam cheias de malícia e soltavam em seguida um sorriso maroto, algumas me invejavam, dando-me a entender que elas sabiam que eu estava louco de desejo e que, em breve, no aconchego de minha casa, desfrutaria de momentos de grande prazer ao comer aquela pizza (ou seria aquela sexy garota imaginária ?).

Bom, diante de tantos olhares invasivos, só sei que na hora de comer a tal pizza senti-me um pouco constrangido, como se fosse fazer sexo diante de uma grande plateia de curiosos e invejosos. Fiquei pensando ainda em quantos daqueles que me viram com a tal pizza sedutora que não a teriam imaginado na hora de comer seu monótono arroz com feijão ?

Depois dessa experiência constrangedora já me decidi: Dá próxima vez vou pedir que ela seja entregue em casa. Assim, meu mal-estar será menor, pois minha "tara degustativa" ficará somente entre mim e o motoqueiro.  

sábado, 10 de agosto de 2013

Horror à monotonia

Prefiro as sextas-feiras, 13, e a possibilidade eletrizante de ser morto por um Jason qualquer, às enfadonhas segundas-feiras, 16.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Locomotiva

Era uma vez uma locomotiva.
Ela era louca.
Era emotiva.
E por ser assim
viva descarilando,
arrastando consigo
um mundo de 
seguidores
que sem ela
não tinham 
forças de ir 
adiante
pelo simples
fato de não
serem loucos
nem emotivos.
Eram grandes,
mas vazios,
vagos, vagões,
mesmo quando
abarrotados de 
pessoas que se
acotovelavam
para entrar e
para sair
porque também
eram vazias
de sentimento
e pensavam
que por portarem
celulares
eram mais loucas,
mais emotivas,
entre lágrimas
que não caíam
e gargalhadas
silenciosas
restritas a
enfadonhos 
Kkkkkks.


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Poema leviano sobre pelos pubianos

Entra ano, 
sai ano 
e eu aqui
imaginando
como devem ser seus 
pelos pubianos.
Serão muitos ?
Desenhados ?
Raleados ou 
totalmente ausentes ?
Bom, 
"pelos" sim,
"pelos" não,
tento eliminar
essa curiosidade
quase de pivete,
raspando meus
desejos mais 
profundos 
com afiada gilete.
Ah, como esse dilema
me entristece. 
Raspo, raspo...
mas essa minha 
vontade
novamente
logo cresce.