terça-feira, 15 de setembro de 2015

Pichador solitário

Ele gostava de pichar muros, mas como tinha alguns valores morais, sempre sentia uma culpa dos diabos logo após seu ato transgressor. Então, teve uma ideia: só picharia as portas de correr de estabelecimentos comerciais. Passou a agir assim, e nunca mais se sentiu culpado.

Agora, durante o dia, enquanto seus rabiscos de tinta adormecem enrolados em folhas de aço, ele caminha prazerosamente sob a luz do sol, ciente de que seu "trabalho artístico" está ali, incógnito como ele. Entende que suas pichações são tesouros escondidos.

E à noite, quando não sai para pichar, passeia solitário pela cidade apenas para apreciar a sua "arte", uma "arte" que se destina a poucos, aos notívagos, aos bêbados, aos amantes, aos poetas e aos gatos famintos.

É bom lembrar, que quando ele está pichando, muitas vezes, acaba se apaixonando perdidamente por seus traços, sempre "tão perfeitos" e carrregados de profundas mensagens codificadas.

É nessa hora que a vaidade o convida sedutoramente a sair do anonimato, a se revelar como o "grande artista" que é, mesmo com o risco de ser preso pela polícia e de tomar uns cacetes dos comerciantes.

Mas quando isso acontece, é a própria lata de tinta spray que o traz de volta à realidade e ao anonimato, ordenando simplesmente que ele se cale, dizendo assim: xiiiiiiiu!!!


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