Era uma vez um casarão da avenida Paulista que nem sabia ao certo o que ou quem era. Estava ali há anos. Até que, do dia para a noite, construíram diante dele um enorme edifício todo espelhado. O antigo casarão então conseguiu se enxergar por inteiro e perceber quem realmente era.
Viu que destoava da maioria por conta de sua idade avançada, de sua estatura um tanto modesta para os padrões atuais, mas, por outro lado, sabia que tinha mais história para contar que seus vizinhos. Os corredores de sua alma eram cheios de lembranças e nostalgia. Ao se observar com mais cuidado percebeu também que, apesar de toda vivência, precisava ainda assim de uma garibada a fim de sobreviver naquela selva de pedra, repleta de preconceito com os mais velhos. Submeteu-se então a um processo de rejuvenescimento, o famoso retrofit, mais por imposição da sociedade do que por vontade própria.
Enfim, terminado esse processo, ficou mais tranquilo, pensando assim estar livre do etarismo que vinha sofrendo. Porém, no momento em que ele se encontrava em relativa paz e dormia tranquilo, numa noite de verão, não é que o colocaram no chão, num processo quase relâmpago de demolição?
O antigo casarão ainda teve tempo de ver sua vida inteira desmoronar diante do espelhado prédio vizinho, aquele mesmo, que ficava diante dele, do outro lado da avenida, e que meses antes o apresentara a si mesmo num processo complexo de autodescoberta.
O casarão saiu de cena para dar lugar a um outro edifício espelhado, construído em seu lugar, e que agora vive uma competição narcisista com seu vizinho espelhado, numa disputa de vaidade e aparência. E assim, quem sai perdendo é a paisagem paulistana, cada vez mais egocêntrica, sedenta por jovialidade, e também para não deixar qualquer resquício de memória para as gerações futuras.
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