terça-feira, 25 de novembro de 2014

Santo 'modestinho'

A porta fechada, e a chave sabe-se lá onde a meti. Reviro bolsos, vasculho o chão, e nada da bandida. Superada a crise de desespero, sento-me no meio-fio e começo a matutar. Quem poderia me ajudar nessa empreitada de abrir a porta? Penso em recorrer a vários santos, mas descarto São Longuinho por achar um tanto piegas. Não o santo em si, mas os três pulinhos que teria de dar assim que a chave fosse encontrada. Comecei a fazer uma pesquisa dos santos que conheço e descobri que queria um santo diferente. Não como esses que estão aí nos altares, andores e nos famosos "santinhos", que hoje já podem ser considerados "selfies" dessas santidades.
Queria um santo que não se ocupasse dos grandes feitos, que não tivesse como vocação cuidar das coisas profundas do corpo e da alma, que não ostentasse o slogan de "santo das causas impossíveis", que não fosse colocado de cabeça para baixo até que fizesse o milagre, que não carregasse títulos como "advogado dos injustiçados", "alento dos aflitos", "companheiro dos abandonados", etc, etc.
Queria um santo mais modesto, que não fosse reconhecido nem pelos outros santos ou pelas várias igrejas existentes. Que não tivesse seu dia no calendário religioso, e que descansasse nos finais de semana. Que tivesse tido uma morte natural, diferentemente de quase todos os outros, sempre martirizados até o final. Que nos simpósios lá no céu buscasse seu cantinho numa boa, tranquilo, bem longe do fervilhante palco e das várias demonstrações ambiciosas dos milagres feitos pelos santos de elite no ano anterior mundo afora. 
Esse meu santo não jogaria com a camisa dez. Mas também não usaria aqueles números enjoados que hoje se vê no futebol, do tipo 99, 86, 77 enfim. Esse meu santo de devoção pegaria modestamente a camisa que o treinador celestial lhe jogasse nas mãos, um número 5 ou 6, por exemplo. Jogaria pelo meio campo. Seria um carregador de piano, voluntarioso.
Esse meu santo jamais estaria por detrás de grandes milagres, como um pouso forçado de um avião, sem vítimas, ou o resgate de mineiros soterrados há vários metros de profundidade. Também não arrumaria casamento dos sonhos, não sanaria dívida gigantesca de cartão de crédito, nem seria o responsável por conseguir os primeiros lugares em concursos públicos ou em faculdades federais. Ninguém teria sua imagem na medalhinha nem na carteira, e ele não contaria com nenhuma igreja que o exaltasse. Nem uma oração específica sequer ele teria. Também não adotariam seu nome para batizar crianças, ruas, açougues, mercadinhos e afins.  
Ele seria das causas modestas e entraria em ação quando o sujeito bufasse com raiva, com medo, meio perdido diante de um problema, dobrando-se totalmente ao que de verdadeiramente humano existisse dentro dele. Esse santo tímido ajudaria, por exemplo, um aluno relapso a tirar nota "C" na prova, fugindo de notas piores. Lembraria uma dona da casa de que a hora de desligar o feijão no fogo se aproximava. Salvaria um pobre ratinho das garras de um gato, já bem alimentado com ração de primeira. 
Ele também confortaria aqueles que tivessem acabado de meter a canela no cantinho da cama, consolaria quem houvesse colocado sal em demasia na sopa e aliviaria o leve sofrimento de quem tivesse deixado cair xampu nos olhos na hora do banho. Fortaleceria ainda o ânimo dos que estivessem vivendo uma desconfortável diarreia ou que, com a bexiga muito cheia, procurasse a todo custo o banheiro mais próximo para fazer xixi, sem comprometer as calças. 
Enfim, diante da porta fechada, busco um santo que não tenha superpoderes. Ele nem precisa me achar a chave. Basta apenas que me entretenha por algum tempo, livrando-me do desejo ardente de pedir emprestado ao vizinho um pé-de-cabra, o que aliviaria, apenas momentaneamente, parte das minhas frustrações, colocaria minha ira pra fora, mas que depois me faria não dormir à noite, vigiando a porta toda arrebentada.
Desejo um santo que seja como a gente, que não cure todas as chagas, mas que, com um pouco de boa vontade, alivie as dores cotidianas e quase esquecidas de todos nós, passando sobre elas, não o bálsamo imponente dos céus, mas apenas um pouquinho do bom, eficiente e velho conhecido Hipoglós.



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